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quarta-feira, 10 de julho de 2013

A ARQUE VERSUS CRATOS

Ou Das Anarquias Hierarquias e Panarquias Redes: Sistemas ou Estruturas? A representação clássica das redes é dada por Baran que as classifica em três conjuntos distintos conforme a distribuição de seus nodos pelo espaço. Centralizada. Decentralizada e Distribuída. A rede propriamente dita seria a distribuída, enquanto a centralização das estruturas seria o fator determinante da desconfiguração da rede. Podemos ainda dentro de uma abordagem estrutural classificar as formas de organização em três formas arquetípicas central, piramidal, matricial. Novamente a matriz mais perfeitamente distribuída, representa a rede ideal, porém essa pode ser negada ou desconfigurada não mais apenas por organizações centralizadoras, mas também por organizações piramidais. Estruturas piramidais são representações figurativas de um bastante tipo especial de organização centralizadora a hierárquica. Uma hierarquia não deixa de ser um tipo de organização centralizadora, porém seus vetores possuem ramificações. Estruturas centralizadoras são formas bastante simples de organização. Estruturas hierárquicas podem atingir níveis de complexidade extremos. E se combinar com estruturas centralizadoras de modo a proteger seu núcleo. Tais combinações produzem o fenômeno da corporação, onde elementos componentes da matriz perdem sua autonomia para o núcleo central. Deixam de ser um ente autopoiético para ser parte do corpo que apresenta comportamento uniformo e centro de comando. Claro que pode também ocorrer o fenômeno oposto onde o fluxo de informação ou comando seria reverso, mas isso como veremos mais adiante seria insustentável, porque a quantidade de demandas-informação para um único núcleo só pode ser destrutivo. Em outras palavras tomemos as duas figuras: Se os vetores estão voltados do centro para nodos temos a representação de uma relação de comando, se os vetores estão voltados dos nodos para o centro, temos um cerco e a imanente destruição do centro, no mínimo por sobrecarga informacional. Sim como diria Hobbes ou São João esse tipo de besta tenha uma ou sete cabeças, felizmente são monstros que tem algo que podemos cortar. Como veremos mais adiante o maior problema não são os bichos que não tem corpo nem cabeça, e que habitam nossas cabeças. A hierarquia é, portanto um tipo bastante especial de estrutura onde a estrutura matricial que controla o comportamento dos seus componentes e não os entes que geram o comportamento matricial. Não há autopoiese exceto no centro de comando da matriz. E a estrutura é mais resistente a inversão dos fluxos informacionais. Comportamento é um fenômeno dinâmico e analise estático-estruturais por obvio não comportam muito bem o movimento, nem tão pouco as estruturas em redes que de fato correspondem ao muito mais as evoluções da rede do que a própria estrutura em rede. As redes são o fluxo, a matriz a decomposição epistemológica da rede em tempo espaço e movimento. A rede como percepto é, portanto uma matriz, mas não se define apenas pela distribuição de seus entes ou componentes pelo espaço, mas pela variação de suas trajetórias ao longo do tempo – ou como já dissemos ao introduzir o conceito de movimento se concebe dinamicamente. A rede se concebe em fluxo sendo rigorosamente, portanto um sistema vivo ou dinâmico, não necessariamente matricial, mas euclidianamente matricial. Em representações ou abordagens não físico-espaciais ou geométricas a rede pode ser concebida compreendida de outras formas, como proporemos mais adiante. Simulações Computacionais Booleanas (pode pular se você não for nerd) Por hora continuemos a montar nossa rede no mundo dos quadrados. A introdução da variante fluxo não introduz apenas uma historia para a matriz ou seus e entes ou componentes, mas um histórico de variação das estruturas, compondo o conceito de um padrão de comportamento para só os componentes, mas para as estruturas. Isto gera tanto possibilidades quanto demandas. Podemos ter uma ideia muito melhor do que são as redes naturais e sociais a partir da analise destes padrões de comportamento sistemático ainda que reduzidos a conceptos matriciais espaço-temporais analisando as evoluções representadas graficamente por estes sistemas computacionais booleanos. Mas isso demanda o desenvolvimento do conceito em nível algorítmico de um logos para o sistema, quanto o conceito e novamente o algoritmo correspondente e muito mais complexo de uma arque autogeradora para cada ente do sistema, uma autopoiese da autopoiese. De acordo com esta abordagem seria possível não reproduzir padrões apresentados por uma matriz-multiverso, mas a partir desta analise enumerar as diferentes logica passiveis de serem aplicadas a uma matriz de modo a produzir os mais diversos padrões de auto-organização e evoluções. Considerando ainda o principio de autopoiese essa logica não poderia ser de antemão única ou centralizada, devendo emergir de entes autônomos dotados de inteligência suficiente para se autoproduzir em interação com o sistema eminentemente determinístico. Computacionalmente dá um bocado de trabalho e não sei se os resultados seriam satisfatórios. Porque a simulação de redes autopoiéticas demanda a criacao de inteligências artificiais, ainda que em seus estágios muito primitivos e metarealidades virtuais no mínimo extravagantes. Suponho por exemplo a criacao de uma matriz representando o nada, dotada de uma vontade primal como liberdade (a logica do sistema) da qual qualquer ser que ainda não existisse, mas que tivesse vontade de existir(?) tomasse essa vontade(???) como liberdade individual (logica própria e indeterminada) para constituir a identidade logica ou sentido evolutivo por geração inconstante de seu ser em interatividade com os demais dentro desta rede autopoética difusa que não seria senão a própria manifestação desta vontade primal libertaria difusa como sistema matricial. Entre outros problemas graves desta proposição, (como não fazer nenhum sentido ) a simulação do principio indeterminístico, e da vontade primal como logica geradora de uma espécie de direito difuso é uma dificuldade enorme porque o processo algorítmico da randomização não equivale a indeterminação. A abordagem Sociológica (ou podem voltar daqui) Claro que não precisamos simular matematicamente comportamento de redes autopoiéticas a partir de inteligências artificiais, ou do zero. Podemos traspor redes sociais para modelos geométricos e analisar a historicidade das estruturas de modo a identificar os padrões de comportamento que definem as redes não como estruturais cristalizadas, mas como sistemas dinâmicos e auto-organizados. Mas ainda sim não creio que tal abordagem seria capaz de sugerir o que é a rede para além da representação simbólica, ou o que são estes fenômenos. Porque pensa-los como fluxos, ou qualifica-los como sistema dinâmico apenas me diz o mesmo que Sócrates disse a respeito do conhecimento só sei que nada sei. Em outras que precisamos reaprender constantemente com esta forma viva, com este vir a ser está, ou estava porque como Tao o que vemos são suas pegadas - luz de estrelas mortas a milhares de anos. A pergunta então não é o que são estes fenômenos, imponderáveis por natureza, mas qual a melhor forma que dispomos para retrata-los neste momento. Creio, portanto que para entender as redes como fenômeno, dentro de uma abordagem mais próxima dos sistemas dinâmicos não dispõe de melhor metáfora melhor do que a sociológica. A diversidade do mundo social exige que nos apropriemos de conceitos que podem nos ajudar a entender melhor as redes. Mesmo perdendo muito do rigor que a visualização estrita das estruturas que a metáforas físico-geométricas pode conferir, ganhou em amplitude conceitual na analogia desta com a complexidade da vida cotidiana. A metáfora sociológica também é bastante oportuna já que as comunidades e redes do mundo virtual parecem querer replicar e multiplicar suas estruturas dinâmicas no mundo real. Da virtualidade à realidade Assim tanto para sair do mundo das ideias e ir ao mundo real, para fazer esta transição das estruturas em redes, para os sistemas dinâmicos como analogia sociopolítica o método que utilizaremos nos inspiraremos mais uma vez na alegoria libertaria. O método é o seguinte, e o descrevo, mais uma vez dentro do modelo matricial computacional booleano: A matriz é constituída por entes cuja dinâmica é definida a partir de uma força motriz fundamental (logos), que é sua vontade constituinte. Seu objetivo é criar trajetórias no espaço tempo não apenas sozinho, mas em interação com os demais de modo a criar comportamento integrado. Neste processo em principio o comportamento original é libertário. Isto é governado apenas pela vontade de ser (arque). A inteligência em questão comunica-se desenhando uma trajetória no espaço com as demais inteligências de modo a propor uma espécie de dança conjunta. As evoluções deste universo são sinônimo desta espécie de dança polinizadora. Considerando que elementos ocupam uma matriz de espaço limitado. Não temos apenas uma espécie de cooperação competitiva, mas a possibilidade de eventuais choques de vontades, ou completa frustração de inventivas. Essas duas possibilidades poderão gerar randomicamente a alteração do comportamento libertário para o autoritário. Isto é de um ente que tenta afirmar o seu ser, perante os demais ou em comunhão com os demais, para um ser que tenta conformar os demais a seu ser ou a sua vontade. Há uma gradual inversão de comportamento de comunicativo para violativo. Conforme as livres iniciativas do individuo são frustradas. Ou ignoradas, violentamente interrompidas seja porque não encontram espaço, seja porque entram em choque com outras evoluções ou estruturas seja simplesmente porque deliberadamente outro(s) individuo(s) a interrompe. A inteligência não tentará comunicar suas intenções ou convidar as outras inteligências a construir trajetórias junto com ela seu objetivo agora passa a ser o de: interferir mandar, possuir as trajetórias das outras inteligências. Ele não constrói mais trajetórias, conexões ou comunicações, ele interfere, interrompe, bloqueia, destrói. Seu comportamento não é conectivo é disrruptivo. Numa espécie de replicação ou contraposição ao comportamento disrruptivo sofrido. Sua função é interromper as evoluções. Sua atuação na rede é de força, suas relação agora de poder. Seu principio sua arque não é mais eros, amor ou liberdade, é tanatos, violência e poder, não é mais um ente autopoiético gerador de evoluções cocriador da dança do universo, é componente do meio do corpo, do leviatã, artificial, servo de um status quo cristalizado, que executa movimentos reiterados e automatizados, programados, adestrados e predeterminados por um grupo que atua como espécie de sistema imunorepressor atacando e destruindo qualquer célula que apresente um comportamento diferente. Aqui o sistema já começa a apresentar comportamento corporativo do arcaico para o tipocrático. Quem não dança conforme a música, já era. Entes assim tendem a se constituírem, portanto como instituições não apenas agregando mais indivíduos frustrados, mas reproduzindo frustações. Tal comportamento se não puder ser eliminado rapidamente contamina toda a rede paralisando todo o sistema destruindo qualquer possibilidade de evoluções. Monopoliza, repete, cristaliza e morre. Monopólios O objetivo do ente frustrado ainda é o mesmo, mas como todo violador seus métodos é que são distintos. Incapaz de chamar ou centralizar as atenções com suas evoluções, a célula ansiosa por poder não tentará mais gerar evoluções, criando conexões, mas tentará ter manter e controlar outras células e conexões, pela eliminação da liberdade, privação e alienação dos corpos e vontades (fluxos) de outras células e conexões. A centralização é a hierarquia emergem quase sempre como estruturas cristalizadas ou status quo destas estratégia, que embora emerja como configuração centralizada ou indiretamente centralizada (hierarquia) é do ponto de vista dinâmico a mesma estratégia monopolista. A diferença parece pequena, mas não é. Uma célula libertaria tentando centralizar de forma absoluta as atenções tem muito pouca chance de sucesso, ou um sucesso bastante fugaz, afinal devemos lembrar que ao contrario do mundo em que vivemos no sistema aqui em proposição as demais células não foram programadas adestradas para serem telespectadores, todas ainda querem ser o centro das atenções. O ponto é que como célula livre nada faz ela além de dançar, comunicar-se. Uma célula mesmo sem muitas pretensões centralizadoras, mas digamos infectada pelo vírus do poder ou completamente frustrada, irá se valer de violência- digamos chocar-se com todas as células dentro do seu raio de ação, simplesmente como forma de demonstração de sua força seu domínio sobre um território, a base da construção do seu campo de força ou domus sobre o qual outros indivíduos não gravitam propriamente por desejo, mas por medo, em principio de serem atacadas, depois de não serem protegidas por sua violência ou ansiosas por partilhar desta mesma força e elas mesmas tomarem parte deste poder e lugar neste domus. Isto são as chamadas hierarquias, mas que não tem, mas nada de arque são qualquer forma piramidal entre uma monocracia e uma anarquia. Uma democracia onde algum tipo de escravo de tempo integral ou meio período trabalha para que algum desfrute do ócio parlamentar e mandar. Monopólios são estas redes de poder são constituídas no mundo real para criacao de matriz- domus e a exploração político-econômica do homem pelo homem através dos sistemas sociopolíticos. É importante notar que nesta simulação computacional booleano de evoluções e constituições de sistemas sociopolíticos, as diferentes ordem ou estruturas que emergem não são necessariamente boas ou ruins, uteis ou inúteis, mais evoluídas ou menos evoluídas, elas são sim produto da maior ou menor liberdade difusa ou libertarias, de vontades reprimidas ou expressas. Assim, quanto maior for a quantidade de células executando evoluções integradas por livre e espontânea vontade, maiores será o grau de autopoiese deste sistema. A inteligência destas células, ou seja, a capacidade de expressar estética simbolicamente suas evoluções de forma a conectar-se a outros intelectos e constituir novas estruturas integras por padrões complexos arquitetados por evoluções expressas por livre e espontânea vontade como um principio criativo a arque de um logos. Neste sentido o próprio fluxo da rede como ente autopoiético. A hierarquia Por outro lado quanto maior for o grau de desintegração do sistema seja ele provocado pela falta de inteligência dos seus componentes, isto é, a falta de capacidade de comunicar-se simbolicamente (conectar-se), maior serão o numero de entes frustrados e frustradores. E dessa desinteligência do sistema emergirão as relações de força ou poder, com a destruição obstrução, centralização por monopólio das conexões. As tipocracias. Cratos” é poder e toda a forma de cracia é a proposição consciente ou inconsciente de uma regulação da rede pela força de um determinado “cracia”. O que vem na frente buro, aristo, mérito, auto, demo, pouco importa o que importa é o que vem literalmente por trás, o poder da força. Arque é principio, um sentido para um movimento, não uma força que empurra puxa, atrai, ou cria vetores de força o campo domus. É inteligere muito mais uma vontade à medida que cria um sentido para um ente com autonomia e capacidade para gerar dinamicidade própria. A arque claro pode ser empregado com sentido pejorativo como em hierarquia, e com razão já que nunca conheci organização humana que tivesse tentado imitar a estrutura fractal como intenção libertarias. Contudo é importante lembrar que estruturas podem ser formadas até simultaneamente pelos dois tipos ou tendências organizacionais, à medida que um mesmo nodo pode reagir ou interagir de modo diferente a outros nodos conforme os reconhece ou irreconheça como pares ou diversos. Inimigos, amigos, neutros, desconhecidos. O seu padrão de comportamento é determinado não apenas pelas circunstancias, mas pelo condicionamento ou experiência recebida, assim como pelo comportamento tanto do ente em interação quanto de todos os demais que em interação com ele, influenciando sua evolução-decisão-comunicação nesse jogo social. Isto significa que uma hierarquia não é necessária uma tipocracia se não apresentar as características das relações de poder, isto é se seus componentes não se valem da do poder força ou violência para controlar os fluxos da informação evoluções ou ainda a formação de diferentes arranjos ou configurações entre os seus componentes ou as demais estruturas ou evoluções. Nem todo corpo com seus órgãos forma uma estruturas corporativa, nem toda a colmeia com sua rainha forma uma estrutura absoluta. Nem toda a estrutura de comunista forma uma estrutura totalitária. E nem toda estrutura libertaria o anarquismo individualismo absurdo. O elemento fundamental para a geração da perversão da arque em cratos é a supressão de eros por tanatos. A conversão de um ente livre dotado de vontade e inteligência própria num ser autômato. A arque é um principio o logos dinâmico constitutivo do sistema dentro da geometria fractal o próprio principio criador e replicador não apenas das estruturas, mas de sua evolução. Das Autarquias A arque como vontade primal ou inerente a todo ente cuja existência é movimento é em sua essência é a liberdade plena de fluxo dentro da rede. Logo a corrupção primeira da rede ou do principio constituinte das redes é a negação do fluxo. A relação de poder. O impedimento da expressão da vontade. Vontade não de terceiros, mas dos entes gerados da entidade fundamental de uma conexão os nodos. Em outras palavras um ente não tem apenas liberdade plena para se conectar, mas para também se desconectar de qualquer outro nodo. Ora essa liberdade que ninguém pode obriga-lo a ficar conectado a um centro, a uma hierarquia, mas também ninguém pode impedi-lo de fazê-lo se essa for a sua vontade! Ninguém pode obrigar os entes livres de uma rede a se distribuir ou mesmo a fluir contra a sua vontade, porque o fluxo, não é a dinâmica física aparente o fluxo é manifestação da Vontade! Em outras palavras o principio autogerador das redes é a liberdade. As hierarquias, monarquias, anarquias, oligarquias, panarquias, não são em si sistema bons ou runs, são apenas formas de auto-organização, ou desorganização dependendo do ponto de vista ou do gosto do freguês. Se um maluco quer se coroar rei do seu quintal e outros tantos acreditam que ele é soberano por vontade de deus, ou por sua própria vontade, ou é a própria senhor dos céus que o fez senhor da terra, ou qualquer coisa similar quem é o soberano mor pra impedi-los com a força bruta de idolatrarem seu rei, de prestarem seu culto, de terem sua cultura politica? Deixem que tenham sua religião monoteísta laica em paz. Quem eles incomodam? Não batendo na minha porta aos domingos como pregadores ou cobradores de impostos incomodam menos que muita gente. Deixem que eles paguem seus tributos, corem seus reis, passem faixas em seus presidentes, encham de títulos eméritos e pronomes de tratamentos os meritíssimos, os magnânimos, as suas excelências, deixem que eles coloquem peruca e toga em seus deuses e os idolatrem, porque não? Que elejam seu cavalo para o senado, porque não? Porque as pessoas não devem ter liberdade de culto laico? Porque as pessoas não podem idolatrar as autoridades medicas como os senhores absolutos de suas vidas se assim o desejam? Porque as pessoas não podem entregam os seus filhos as escolas e professores para que eles aprendam a obedecer, a fazer fila, comer e fazer xixi ao sinal de campainha como um cão de Pavlov? Se for o que elas querem, porque não? Quem nomeou a mim ou a você os salvadores e libertadores do mundo? O que podemos fazer de melhor além de sermos nós mesmos e vivermos em paz? O que podemos fazer além de tentar Inteligir? Se as pessoas querem entregar seu poder de decisão a outros e for roubada vigiada e tratada eternamente como crianças por políticos se essa é sua vontade deixam que é a façam? Se querem ser governados por ditaduras de maiorias ou minorias? Que seja. As pessoas tem o direito tanto o direito de obedecer quanto o tem de desobedecer. E se organizar em tantas formas diversas quanto são as suas vontades e possibilidades no tempo espaço. O Eros é o fator determinante da arque é, portanto a própria indeterminação difusa da diversidade. Não há certo, não há errado, há sim acertos e erros, e, portanto experiência e aprendizado. O sistema é inteligente e sensível, capaz de definir seu próprio sentido, e sentindo estrutura-lo de acordo com suas vontades, seu logos é a diversidade, e sua finalidade a evolução não para um ponto definido, mas para a indeterminação da multiversidade, uma panarquia, onde o mais absoluto e centralizador dos princípios a monarquia consegue conviver em paz como o mais desconstrutor e, portanto revitalizador dos princípios a anarquia simultaneidade. O Panóptico Ora é evidente que para que tamanha harmonia possa de fato ocorrer em simultaneidade à violência e a força bruta precisam ser senão completamente neutralizadas, reduzidas com eficácia suficiente de modo que o ruído que ela introduza jamais venha a novamente a contaminar o sistema com o vírus do poder. Quando a Eros, a arque, a estética da vida, paz, e liberdade é convertida Em tanatos, o cratos da cultura da morte, violência e poder? Quanto o Pai-Pátria-Patrão, o culto ao Patriarcado subjuga a natureza da terra, e a diversidade da rede é reduzida ao uno? Mais profundamente quando a mente se aliena de ente criativo e passa a ser um mero processador epistemológico deste tribunal supremo, deste inconsciente coletivo do Todo Poderoso, deste culto maldito ao Absoluto e a verdade única e excludente de todas as demais? Tal trauma, tal perversão da ânsia por liberdade e existência em medo e desejo de ter e poder não é mero um processo arquétipo de centralização, mas cratológico de monopolização, de alienação do homem pela privação dos meios de subsistência existência e expressão. Mais do que a exploração do homem pelo homem, através da rarificação e escassez é o monopólio do homem pelo homem é o controle absoluto da arquitetura física e metafisica do homem pelo homem. O homem que nasce em correntes servo de um próprio criador no céu de seus capatazes na terra. Onipresença, onisciência, onipotência, O panóptico metafisico projetado como entidade dividida e introjetada como superego, amaldiçoado a própria concepção de nossa vil existência. Intermediação do corpo, intermediação da alma, condenação do homem a viver como meio, não como ente. Amputado de sua beleza, divorciado de toda perfeição, Reificado no domus-matrix. Condenado a pena de Morte em vida da Servidão como autômato coisa. Propriedade. A totalização. O poder total e o mito do todo poderoso, são a chave da cultura do absoluto, producente da frustração original do pecado contra eros contra a criacao a criatividade a fertilidade e toda identidade criativa, bloqueador da personalidade. Dentro da rede este processo não se produz apenas como força que impede a expressões das evoluções livres dos indivíduos ou pensamento, mas o cerceamento da livre associação ou desassociações. Estupradores Se nossa seita de adoradores do rei, ou de pagadores de tributos de uma oligarquia persegue alguém decidisse abandonar o grupo, ou ainda se esse grupo passasse exige a conversão obediência, tributos, ou mesmo a audiência dos demais interrompesse obrigatoriamente sua novela com mensagem politicas bem temos claramente não mais um grupo com princípios uma arque, mas um grupo com um cratos, ou seja, um profundo desejo de poder desejo de tomar o poder, de se se fizer poder, se estar no poder, de mandar e ser obedecido. Temos enfim a pior estirpe de sociopatas soltos a ruas estupradores no caso políticos, ou seja, pessoas dispostos a satisfazer seus desejos e vontades sem se importar se os outros estão com a mesma vontade de satisfazê-los. Se estes violadores não tem uma autorização legal são bandidos; se as tem então você é o bandido se recusar fazer a vontade deles. Às vezes eles escrevem antes o que vão fazer com você, e a isso se chama constituição- e então você não tem mais o direito de negar a dar porque não sabia que não tinha que dar. É claro que estou pintando o quadro com cores pesadas. Mas não raro ele tem mesmo essas cores. E a ideia é justamente usar o contraste para denotar bem onde a inversão do principio se faz perversão. O fator determinante a constituição de uma corporação tipocrática é obviamente o cerceamento da liberdade individual, ou do ponto de vista da rede o controle do fluxo ou das conexões e dos isto não implica num ataque não só direto tão somente ao individuo, mas a todas as formas de expressões de sua identidade criativa ou diversidade pessoal que não estejam absolutamente condizente com as normas funcionais da organização. O corpo funciona como sistema imunorepressor de seus componentes internos e externos interagindo de forma não apenas resistiva ao meio, mas destrutiva a qualquer alteração de sua forma- configuração. O sistema atua, portanto normalizando, uniformizando, mediocrizando seus entes em componentes, fazendo-os partes de um conjunto e não mais de uma rede. Ovelhas de um cercado. Moradores de um território e não mais cidadãos de uma sociedade. Não há mais evolução, mas estatus quo. Não é de se espantar, portanto que a partir deste momento, a única expectativa possível de inovação sejam as revolucionarias; ou seja, as que quebrem a inercia do sistema, atacando violentamente as amarras artificiais que libertando prendem pessoas e movimentos naturais desta engrenagem. O problema é que uma revolução não como os meios denunciam não tem princípios, mas fins. É movida igualmente por frustrações e frustrados e ainda que tenha uma causa não tem uma arque, mas um cratos. Seu fim é arcaico o poder. E sua cultura a da violência. A cultura da Violência As culturas da violência é o produto imediato da relação de poder. Sendo que a própria ideia de cultura já é uma perversão da autopoiese, à medida que não se cria se cultiva. Cultura é extensiva, é uma ideia odiosa. A estética é a expressão original da rede. A rede cria arte, o sistema reproduz cultura. Semeia doutrinas em crianças, para colher adultos obedientes. Nessa plantação de gentes, nessa cultura de escravos em sua grande maioria assalariados, imigrantes pobres nos países latrinas na divisão de trabalho do mundo , não se mantem apenas com repressão física ou aprisionamento de corpos, é necessário o controle psicológico. Antigamente duas pessoas eram capazes de se matar sem se conhecer apenas por ter deuses diferentes, uma língua diferente, uma bandeira diferente, desde que seus mestres mandasse que o fizesse. Infelizmente ainda existem pessoas subjugadas e condicionadas a este ponto no mundo, mas não em numero suficiente-espero. Técnicas mais aprimoradas de terror contra seu próprio povo, e incentivos mais sofisticados são necessários para empurrar pessoas se matarem umas as outras para viverem uma vida diferente de sua própria vontade comprar lixo, ou até contraria todo dia seus instintos mais básicos de vida, liberdade ou dignidade. É preciso muitas vezes trancar uma criança vinte anos numa escola e muita TV para conseguir isso, e nem sempre funciona. A chave é o mito do Uno para que ninguém escape da formação, para que ninguém deserte das fileiras, deve ser incalculado que só existe uma verdade. E essa verdade é seu deus, todo poder e o poder total. Deverá ser escravo dele, deverá se submeter a ele, deverá adorara-lo. Mas como? Com devo idolatra-lo? Como devo servir a meu mestre, criador, e senhor? Ora simples seu vagabundo inútil: Trabalhando! Trabalhando! Trabalhando! Trabalhando! E se de vez em quando dando seus filhos para morrer na guerra. E fincando orgulhoso com isso. Só o trabalho salva. Há todo um processo de falseamento da raridade, tudo é escasso. Tudo é raro. Tudo precisa ser produzido a duras penas. Nada é de graça. Como se toda a vida não adviesse de uma fonte de energia inesgotável e ainda possível distribuída de forma completamente indiscriminada e universal de energia, a luz solar, horror dos monopolizadores. Não por acaso os primeiros sacerdotes monoteísta espertamente identificaram deus ao sol o provedor da luz. Se ele é o senhor que de dá a vida é ele que você deve à paga, e eu sou o seu cobrador na terra. Dízimos e tributos. Igrejas e Estados são frutos da mesma vinha esperteza e ódio. A ideia central é o sacrifico de muitos para o desfrute do ócio criativo e politico de poucos. A centralização não basta, é preciso construir uma periferia permanentemente excluída pela ausência dos meios para pô-la a servir o centro. A base da pirâmide nunca ascende, e nunca tem chance de sair da base porque esta esmagada sustentando toda a estrutura. Não é propriamente necessário mais agir para manter a estrutura, o própria do jugo, a própria destituição das liberdades fundamental dos indivíduos para estabelecer as conexões em rede já constituem impedimento mais do que suficiente para que outras formas de organização não tenham chance de emergir, e as evoluções fora do cratos sejam marginais, vagabundas, condenadas a morrer de fome. Nas estruturas político-econômicas não há espaço para ver a beleza dos os lírios do campo. Ou compreender a complexidade de porque os pássaros do céu que não plantam nem fiam não caem amaldiçoados por deus, raivoso, agourento, porque não deu morreu desde seus gêneses trabalhando como o suor do seu rosto ou pisando no pescoço da sua mulher. Fractais A arvore cresce naturalmente hierarquia fractalmente como um corpo hierárquico, a floresta se espalha anarquicamente pelo território. As abelhas polinizam em padrões entrópicos tão complexos que parecem completamente anárquicos. Animais organizam-se sob os mais diferentes arques tanto socialmente quanto sexualmente. Monogâmicos, poligâmicos... Qual o principio correto? Qual o principio verdadeiro? Estas são perguntas que não cabem à natureza das coisas criativas Porque a natureza das coisas É ser e não ser julgadas por servos de seres e poderes supremos e representantes autorizados legalizados e titulados de verdades absolutas. A arque quando se torna verdade absoluta se torna arcaica e morre, vira uma verdade. Somente aquilo que ainda não verdadeiro é interessante porque não existindo carece ser realizado, utopia ideia, futuro, vontade de ser poieses. Evolução. Quero dançar como abelhas. Eu sou a mosca na sua sopa. Quero me coroar como Quincas Borba e abdicar do meu próprio reino. Quero servir a quem vence o vencedor. Quero obedecer ao meu mestre e desobedece-lo. Quero ser mestre do meu mestre e abandona-lo. Quero ser um homem livre com direito e liberdade de credo religioso e politico sexual, liberdade de associação e dissociação em todos os sentidos humanos, sem sofrer violência privação ou expropriação dos meios naturais. Quero ter direito ao ócio e ao capital e colher tanto seja o lucro ou o prejuízo por me expor a este risco, quero ter o direito de me associar com outras pessoas para me proteger deste e de outros riscos em contratos sociais como ou sem intermediários de acordo com minha vontade, para nossa proteção mutua ou mesmo universal. Evidentemente que entre a expressão de uma vontade e a construção de uma realidade a uma distancia razoável e muito trabalho, trabalho no bom sentido da palavra, a ser realizado, ou seja, há muita criacao a ser feita por ociosos absurdamente compromissados com sua vontade de nada mais nada menos criar um novo sentido, juntos. Esculpir o social. Libertar. A arvore não foi apenas podada, faz tempo que rio foi desviado. Não estamos apenas falando então de técnicas de libertação da escravidão, mas da alienação. O desejo de poder mora, sobretudo no nosso coração frustrado. A libertação começa quando nos libertamos dos anseios cultivados por ter e poder dentro de nós, das vontades plantadas de mandar e obedecer que não são um fetiche nosso. Traumas, medos e anseios, muitos deles completamente reais frutos de uma sociedade que priva as pessoas dos meios de vida mais fundamentais e ao priva-las da dignidade embrutece. Não falo apenas da privação material, falo da privação estética da privação cidadã. Não devemos confundir a privação com pobreza. Ser privado de algo não produz instantaneamente pobreza. Assim como a falta de luz não leva a cegueira. A violação está na perpetuação no prolongamento da privação contra a vontade de modo que o individuo perca não sua capacidade, a intenção aqui não é cegar, mas a sua vontade de ver, alienar. Ele continuará vendo, mas não mais enxergando, só verá o que é para ser visto. E como o sequestrado que passa a idolatrar seu violentador por sofrimento ele ainda por cima será grato àqueles que lhe tomaram sua visão, e chamarão o seu novo estado de inconsciência e alienação de revelação. A esse processo de educação feito por todo vida conosco chamamos educação a base da transmissão daquilo que chamamos cultura, o cultivo de gentes, ensinamento, doutrinação, por negação do florescimento de qualquer espirito estético artístico, por negação da capacidade co-significativa do aprendizado criativo em rede. A autopoiese esta morta o espirito estético destruído o ente é uma estação repetidora retransmissora da programação da emissora de telecomunicação. As tecnologias totalitárias do século XX não inventaram nada elas apenas amplificaram um sistema muito antigo de adestramento-programação de seres humanos em servo-escravos-autômatos. Transcendência No cratos contemporâneo a e é reduzida doutrinação. A estética é reduzida a cultura. A ecologia é reduzida economia da escassez e a dignidade a provisão da materialidade do mínimo. A ordem é reduzida ao poder politico. O direito é reduzido cidadania. E a sociedade é reduzida ao estado civil submetida ao monopólio do poder estatal. E a liberdade ao direito liberal de papel. Liberdade não é poder de escolhas é o poder de transcender as privações Superar a pobreza. Transcender é diante de caminhos ou escolhas preestabelecidos construir suas próprias. Não é a negação nem a afirmação, não é nem mesmo a síntese. É a superação do problema, pela recusa da aceitação dos termos em que ele estão propostos, em verdade as soluções de um problema já estão inseridas em sua proposição. O importante não são as respostas que se pode dar mais as perguntas que se é capaz de fazer? Criar suas interrogações consiste no verdadeiro estado de transcendência, negar ou afirmar as respostas são evoluções naturais que podem ser ou não desenvolvidas conforme a vontade. Ser livre não é escolher entre os caminhos preestabelecidos, mas questiona-los e questionando-os construindo os seus próprios novos ou completamente idênticos aos antigos, mas indiscutivelmente criação da sua fé, dos seus principio. Sua evolução. Compromisso como sua vontade. Libertação Libertar-se não é sair da privação, mas é necessariamente sair da pobreza, porque a pobreza é o estado de espirito que fica mesmo quando se vai à privação. A privação escraviza, a pobreza aliena. A privação, pobreza, e alienação; os três estágios para a formação da mentalidade completamente submissa no culto ao absoluto e devidamente conformada ao estatus quo; Mentalidade alienada, pronta a preservar a estrutura que a conforma como se fosse a própria fonte de sua existência. Funcionando como parte de corpo. Idolatrando essa totalidade estruturada não importa exatamente como... O importante é que agora o alienado não apenas não abandonará mais a formação, mas como parte deste todo irá dar a própria vida para preservar essa forma com a qual identifica a sua imagem e semelhança. Sem ela sua vida perde função e sentido. Ele não é mais um ser com sentido próprio, autônomo. O alienado é o Todo. Deus salve a América. God Save The Queen. Brasil ame ou deixei-o. : “tudo no estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”. O maior problema deste modelo tipocrático é que ele sendo fundamenta na mais absoluta intolerância autoritarismo, totalitarismo, monopólio e verdade únicas, a tendência é que todo individuo pertencente a este culto tende a considerar uma ofensa pessoal e direta a ele, a deus e a própria verdade qualquer forma de pensamento, estilo de vida, que contrariem a cultura dominante. Mesmo quando o conceito chave do adorador é o relativo, a tolerância, a diversidade o anarquismo, a igualdade, a liberdade, a arque perturbada do individuo, transtornada pelo poder, tende a fazer a de seu pensamento não uma entidade aberta a entendimento, mas tão somente discriminação e julgamento fazendo seus juízos e emitir suas sentenças monocráticas. A liberdade então passa a ser a proibição de proibir. A igualdade a obrigação de compartilhar. Até a anarquia passa a ser uma estrutura estática onde é proibida a emergência de qualquer padrão que não seja entropicamente complexo ou perfeitamente distribuído. A relatividade até a relatividade passa a ser a mais absoluta de todas as generalizações, ou seja, a negação absoluta da verdade pela máxima relativização de todas as perspectivas. A negação de qualquer universalidade pelo BIGBROTHER relativista. A policia internacional do politicamente correto para a relatividade cultural adverte: Direitos universais são proibidos porque ferem a multiculturalidade. Democracia A republica então se torna cracia do demos. Uma ficção já que a ditadura da maioria sobre as minorias leva aos genos e etnos cídios. A democracia de fato é a ditadura de poucos atores representando figuradamente a vontade de todos os demais. Literalmente uma representação. A panarquia exige naturalmente um mínimo denominador comum à paz, ou de razoável expectativa de segurança. Algo que evidentemente não se produz com violência, nem com redes completamente indefesas perante estruturas tipocráticas. Defesas não significam capacidade de ataque. Significa ter um sistema com capacidade para neutralizar tanto os ataques quanto antes das fontes geradoras da violência como padrão de comportamento ou formação estrutural. Não apenas neutralizar a perversão da eros em tanatos, mas subverter com suas evoluções as estruturas arcaicas; desconverter pela transcendência simbólica-comportamental as mentalidades alienadas e tipocratificadas; quebrar o processo de escassez natural ou monopolização artificial ou compartilhando não apenas o virtual que pode ser infinitamente dividido, mas também o pão multiplicável pelo milagre da teia da vida; explodir com o domus da privação-pobreza-alienação o templo do culto piramidal ao absoluto e onde idolotras cegos imolam a humanidade a baal há milênios. Liberdade não depende apenas da liberalidade que um indivíduo tem para desenvolver suas potencialidades ou evoluções, liberdade emana, sobretudo das condições reais ecológicas-politicas-estéticas plenas para manifestar na realidade sua vontade como a expressão do sentido-significação para sua identidade em interação com os demais entes dotados da mesma liberdade sócia interativa. A liberdade é não estar apenas de estar livre das privações, da pobreza, é estar livre dos condicionamentos e alienações, é estar livre das compulsões psicológicas que impedem a manifestação da vontade para além dos medos e desejos meramente circunstanciais e manipuláveis pelo sofrimento e felicidade. Liberdade é poder sobre si e sobre mais ninguém para dar sentido a própria existência acima das condições preestabelecidas pelo próprio meio ou sistema. É criar sua própria evolução em conexão com a rede que sustem a sua própria existência. Liberdade para todos é o próprio etos da rede enquanto multiverso. A dinâmica do sistema ou a arque do qual emergem os seres e suas vontades como a própria manifestação da vontade de ser. Liberdade como fonte geradora da segurança existencial e não violência. Abundancia. Plenitude, universalidade, compartilhamento por multiplicação e não divisão. Desigual mas autossuficiente para enquanto autogerada pelos coparticipantes do sistema. Cosmopolitas Para tanto é necessário um sistema desintermediado P2P de segurança como seguridade desta liberdade real no mundo real, um sistema de seguridade descentralizado sem autoridade central, mas ao mesmo tempo universal que garanta sem discriminação à tolerância e o estado de paz necessário à liberdade como estado de segurança sobre os direitos fundamentais a liberdade em rede. Uma Internet para a paz como liberdade para todos. Um sistema livre de seguridade descentralizado e sem fronteiras. Essa garantia de bens comuns e particulares para todos, essa renaturalização dos recursos básicos definida e regulada pelos próprios componentes da rede seria suficiente para aplacar a assanha por ter e poder? Quebrar os sistemas ou mesmo impedir as hordas de estupradores político-econômicos dispostos a espalhar e impor seu culto a ferro e fogo novamente por toda a terra usando exércitos armas e violência voltem a emergir? Não se imporia novamente as ditaduras das maiorias sobre as minorias, dos mais fortes sobre os mais fracos? Não haveria de novo um ciclo de autodestruição? Não faz parte da própria dança da vida que a espécie que nasce sob o signo de eros naturalmente seja violada e sucumba como tanatos? Não necessariamente a liberdade precisa se perverter em poder. Ou a resistência a violência se faz com violência. A transcendência é uma possibilidade nos sistemas. Quando uma pessoa se revoluciona passa a apresentar evoluções libertarias, dotadas da capacidade de provocar disrrupções internas e externas capazes de provocar curtos-circuitos nos programas e novas e inesperadas conexões. Aonde até agua virá vinho. São formas de comunicação por atos simbólicos de desobediência civil que transcendem o status quo e são capazes de reinspirar à vontade primal fonte da vida que mantem todo ente da vivo respirando apesar de tudo. A libertação é sobretudo um ato não egoísta daquele que ao olhar e se solidarizar com o outro consegue libertar a si mesmo. Não é um ato de paixão por um semelhante, mas o ato de compaixão para com um desconhecido, por um estranho. A capacidade de compartilhar deste profundo sentimento existencial e sentido de existência para além do seu próprio nariz, para além da sua própria barriga para além da sua própria desejos e necessidades. De fazer do diferente, não objeto de xenofobia, mas de universalidade. É o etos de conectar-se com o tudo. Sentir. Sem medo de sofrer. E lutar como dignidade pela vida, sem medo de morrer lutando. Parece que o fim da violência está apenas quando abaixamos as armas. Esse é o maior engano. Quando um pacifista abaixa sua arma e abre o peito pede para morrer como um cordeiro. Como uma criança. Como um inocente, Sacrificado. Quando ele levanta suas armas para lutar já perdeu a guerra porque cruzou a trincheira. A única arma da não violência é a não omissão perante a privação material a pobreza politica e desigualdade cultural-estética a cavalaria dos patronos de toda injustiça social, bancadores dos signos de poder e monopólios da violência. Ter um planeta para chamar de terra é antes de tudo, ter um mundo para chamar de humanidade. Não há sentido sem sentimento, nem significado sem liberdade. Liberdade Real para Todos. Governe-se.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Governe-se por Thomas Paine em os Direitos do Homem, 1792

“Grande parte da ordem que reina na humanidade não é efeito do governo. Tem sua origem nos princípios da sociedade e na constituição natural do homem. Existia antes do governo e continuaria existindo se a formalidade do governo fosse abolida. A dependência mútua e o interesse recíproco da cada homem com respeito aos outros e que todas as partes de uma comunidade civilizada tem umas em relações às outras criam um grande encadeamento que a mantém unida. (...) O interesse comum regula suas preocupações e forma a sua lei, e as leis ordenadas pelo uso comum tem maior influencia do que as leis do governo. Em síntese, a sociedade executa por si mesma quase tudo o que é atribuído ao governo. O governo é necessário apenas para cumprir umas poucas funções para as quais as sociedades e a civilização não são convenientemente competentes (...) e tudo o que o governo pode acrescentar de benéfico além delas é realizado através do consentimento geral da sociedade, sem governo.(...) Existe uma aptidão natural no homem, e mais ainda na sociedade porque esta abrange uma maior variedade e recursos para se ajustar a qualquer situação em que se encontre.No momento em que o governo formal é abolido, a sociedade começa a atuar. Uma associação geral tem lugar, e o interesse comum produz a segurança comum. A afirmação de que a abolição do governo formal signifique a dissolução da sociedade está tão longe da verdade pretendida quanto a de que o governo promova um impulso contrário, produzindo uma união ainda maior da sociedade. Toda aquela parte de sua organização que a sociedade havia confiado ao governo é outra vez a ela incumbida e age por seu intermédio. Quando os homens tanto por força do instinto natural quanto pelos benefícios recíprocos, se habituam â vida social e civilizada, na prática sempre há o bastante dos princípios dessa vida para ajudá-los enquanto realizam as transformações que julgam necessárias ou convenientes fazer em seus governos. Em suma, o homem é tão naturalmente uma criatura da sociedade que é quase impossível colocá-lo fora dela. O governo formal constitui apenas uma pequena parte da vida civilizada, e mesmo quando se estabelece melhor que a sabedoria humana pode conceber, é uma coisa mais ideal do que factual. É dos grandes e fundamentais princípios da sociedade e da civilização – do uso comum consentido universalmente e mútua e reciprocamente preservado, do incessante fluxo do interesse que passando através de um milhão de canais, fortalece a massa total de homens civilizados – é de todas as coisas, infinitamente mais que de qualquer coisa que possa fazer mesmo o melhor dos governos instituídos, que dependem a segurança e prosperidade do indivíduo e do todo. Quanto mais perfeita for a civilização, menos necessitará de governo, porque regulará melhor seus próprios assuntos e governará melhor a si mesma; mas tão contraria à razão é a prática dos governos antigos que seus gastos crescem na proporção em que deveriam diminuir. São apenas umas poucas leis gerais que a vida civilizada exige, e são leis de utilidade tão comum que, quer sejam impostas pelas formas de governo quer não, o efeito será quase o mesmo. Se examinarmos quais os princípios que primeiramente concentram os homens na sociedade e quais são posteriormente os motivos que regulam suas relações mútuas, descobriremos, quando chegarmos ao que é chamado governo, que quase todo o processo é realizado pelo funcionamento natural das partes umas sobre as outras. Com relação a todas estas questões, o homem é uma criatura mais consistente do que ele mesmo sabe ou do que os governos desejariam que ele acreditasse. Todas as grandes leis da sociedade são leis da natureza. As do intercambio e do comercio, das relações entre indivíduos ou nações são leis de interesses mútuos e recíprocos. São seguidas e obedecidas porque agir assim é do interesse das partes, e não porque seus governos possam impor ou interpor alguma lei formal.” Thomas Paine, os Direitos do Homem 1792.

terça-feira, 25 de junho de 2013

DEMOCRACIA 3.0

Nossa Proposição de Reforma Política: Democracia Direta Digital Plebiscito Permanente Convocado a qualquer momento por qualquer cidadão via Site Governamental e votado pelos próprios eleitores. Seja para a proposição de leis, seja para a troca imediata dos representantes eleitos (recall). Claro que a constitucionalidade de cada proposta de consulta deve ser primeiro devidamente apreciada e ajustada pelo judiciário antes de virar plebiscito para que se garanta o estado de direito, e não se institua uma ditadura da maioria contra as minorias, nem se faça a apologia da violência. Os propositores têm por sua vez, sempre o direito de recusar o ajuste e refazer a proposta. Mas, uma vez aprovada uma proposição de consulta, ela é aberta dentro do site governamental para receber os votos de apoio de outros eleitores para que se torne um plebiscito. Se um número X de eleitores der o seu voto para que a proposta de consulta se torne um plebiscito, então o site automaticamente abre o plesbicito eletrônico que deverá durar o tempo necessário, meses se for preciso, para que todos os eleitores possam acessar a internet gratuitamente e votar via aplicativo de celular ou computador. A inclusão digital passa ser um direito político fundamental. E não suprime os poderes do congresso. Funciona como lei de iniciativa popular previamente autorizada pelo poder legislativo a ir a consulta pública se legitimada pela própria população e judiciário. Utopia? Não. Já estamos em fase avançada de desenvolvimento de softwares não só para a governança colaborativa e participativa, mas para o provimento desta democracia direta via internet e outras instituições digitais em rede que permitam atender as demandas de uma nova geração que já nasceu conectada, e exige respostas em tempo real (ondemand), uma nova geração que controlam suas vidas desde crianças com um clique, e não vão se adaptar aos antigos e arcaicos ritos burocráticos e hierárquicos. Não, não é uma questão de revolução, mas de evolução, ou melhor, de adaptação tecnológica a era da conexão. Não são só as estruturas que estão ficando velhas e ultrapassadas, é o mundo que está ficando mais rápido. E dinossauros embora gigantes e poderosos, sempre são extintos. A geração V, não vai aceitar as velhas agendas políticas e suas manobras, eles não foram doutrinados em suas ideologias. Eles não vão se comportar como massa, nem responde aos modelos teóricos do século XX. Seu mundo não é feito de estruturas, é dinâmico e seus pensamentos fazem evoluções pela res-pública de ruas e redes compartilhadas. A liberdade real não é mais um privilégio de poucos, ela é um direito civil. Na era dos sentidos e significados co-criados em rede, os Estados só têm dois caminhos, o totalitário ou o libertário, e nosso povo já fez sua escolha e não é de agora: Libertas que sera tamem... governe-se.com

domingo, 23 de junho de 2013

Pela Liberdade de todos de se Manifestar

Não aos Fascistas. Também não tenho muito apreço por partidos nem por políticos; não gosto de TV; e com esforço suporto a militância política; mas vou pra rua e até ponho a cara pra bater junto com eles, pelo direito deles de se manifestar e expressar. Até porque o direito deles é o mesmo que o meu (e o seu). Não podemos tolerar que um grupo de fascistas intimide e agrida nem militantes, nem jornalistas - não importa o quão inoportuno ou oportunistas achemos que estes ou aqueles sejam. Já nem importa mais o que achamos ou se concordamos uns com os outros, agora o mais importante é que mesmo discordando irremediavelmente uns dos outros, mesmo até desgostando uns dos outros, que demonstremos o quanto não estamos dispostos a tolerar a violência. E se o Estado pensa que muito faz em não agredir ele está muito enganado; seu dever é proteger. Ele não pode deixar a população para ser agredida ou arregimentada (contra o próprio Estado) por protofascistas mal disfarçados de nacionalistas. Um Estado de direito não é um estado em que os policiais não atacam ou reage desproporcionalmente, mas um estado onde as forças de segurança garantem a integridade dos manifestantes, sobretudo contra aqueles que querem se apoderar do espaço público pela força. Não vamos entregar as ruas aos intolerantes. Sociedade civil, militantes, anarquistas, libertários, liberais, jornalistas, não vamos abandonar as pessoas que estão protestando nas mãos de pessoas que pregam o partido único, o partido total. Este é o apelo que fazemos, vamos apoiar in loco e juridicamente toda manifestação pacífica e que nenhum militantes ou jornalista sejam hostilizados. Este é o apelo que fazemos as outras ONGs, Militantes, e Jornalistas, vamos apoiar não apenas a liberdade de manifestação, mas o direito de todos, sem exceção, manifestar sua liberdade de expressão em segurança. Cobramos que as lideranças políticas e governamentais cumpram o seu dever que não é o de militar, em nenhum sentido da palavra, mas o de garantir a segurança dos manifestantes e sua plena liberdade de manifestação porque sem esta garantia incondicional da liberdade não teremos um estado de paz, e nem muito menos um espaço público para a democracia. Governe-se.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Porque não existe renda básica em regimes populistas eou de exceção à Democracia

A RB demanda incondicionalidade. Isto quer dizer que na sua provisão não se pode demandar que aquele que a receba dê ou faça qualquer coisa em troca. Essa demanda pode estar explícita como nos programas de renda mínima condicionadas ou implícitas onde a democracia inexiste ou é precária. Não há possibilidade de uma RB Incondicional onde não há liberdade plena do cidadão, porque onde não há democracia a provisão da renda está implicitamente condicionada a submissão ao regime autoritário, implicando em aceitação das supressão das liberdades e direitos subtraídos, condicionados a obediência ou subverniência política, finalidade oposta a da RB. Essa conformação a um estado de opressão da liberdade, sobretudo política e individual configura-se como uma condicionalidade indireta pelo simples fato que o seu não cumprimento implica em suspensão da RB juntamente com outros direitos a vida e liberdade tão fundamentais quanto.
Se no fornecimento de uma renda para todos os cidadãos por um regime autoritário, a condicionalidade da obediência política está implícita na própria natureza do regime; em regimes com democracia precárias, a condicionalidade mesmo que não exija obediência cega ao poder pela ameaça de violência ou prisão, demanda no mínimo fidelidade ao partido ou governo à medida que este não garante a continuidade do programa, ou a não suspensão do direito independente da alternância de poder, ou da simples visão ou mais propriamente falta dela por parte de quem detém o poder.
Regimes autoritários são regimes de exceção a instauração de quaisquer transferências de renda para todos, mas para os submisso e submetidos ao regime. É mais um cupom governamental para ração humana do que um crédito para a liberdade. Em regimes populistas ou tecnocráticos, ambas formas de democracias precárias, as transferência de renda ainda que não sejam RMC, se não são reconhecidas como direitos fundamentais inalienáveis não são RBI. Em termos práticos se a provisão da RBC depende ou está sujeita as deliberações indiretas de representantes executivos, legislativos ou mesmo do poder judiciário, então ela está condicionada a esses poderes enquanto são eles que podem concedê-la ou suspende-la.
Uma renda básica portanto não deve estar submetida a nenhuma outra instancia senão a deliberação direta da sociedade enquanto comunidade política que a prove, ou no mínimo daqueles que pagam por ela. Lembrando que quem paga por tudo que o estado prove e o próprio estado é o cidadão e não os governantes, que na melhor ou menos custosa das hipóteses são meros intermediários.
Qualquer possibilidade de alienação deste direito gera o fenômeno da condicionalidade ainda que não explicita nas normas do programa de transferência de renda. A provisão de fato de uma renda básica incondicional é um sinal de uma democracia consolidada à medida que impede que a transferência de renda seja usada para fins autoritários, ou de controle político da população promovendo distorções no processo político eleitoral, emergência de lideranças que a intermediam ou controlam, impedindo desta forma o desenvolvimento de instancias democráticas mais amadurecidas e avançadas como a democracia direta.
Devemos evitar que se use a extinção da pobreza e privação material, como desculpa para a promoção da pobreza política e privação de direitos civis. A RB não é processo de redução da liberdade, mas de ampliação. É processo emancipatório que não pode ser pervertido em instrumento de dominação ou reduzido a propaganda eleitoral. Assim como a falta de uma renda básica é uma falha do sistema que mina a democracia; a falta de democracia impede a instauração de uma verdadeira renda básica inalienável e incondicional, instrumento de garantia da cidadania plena e não tutoriada, destinada a erradicar a pobreza em todas as dimensões material, cultural e política, em outras palavras promover a liberdade de fato e não de papel.

Prévia da Prestação de Contas ReCivitas 2011

O ReCivitas realiza desde 25 de Outubro de 2008 o pagamento de uma renda básica incondicional de trinta reais para a pequena comunidade de Quatinga Velho localizada no distrito rural de Quatinga no município de Mogi das Cruzes, São Paulo, Brasil. O projeto-piloto atende hoje a 90 moradores da localidade. O próprio ReCivitas publicou um primeiro relatório sobre os resultados desta experiência inédita. Pós este, outros estudos internacionais independentes foram realizados; todos atestando o impacto positivo do projeto no desenvolvimento humano e econômico das pessoas atendidas. Resultados modestos, mas concretos e extremamente significativos, com uma relação de custo-benefício e transparência que tem permitido que a organização mantenha o projeto sem nenhum tipo de subsidio governamental ou patrocínio empresarial, ou seja, tão somente com contribuições voluntárias de pessoa para pessoa, atualmente pessoas de mais de 17 diferentes nacionalidades.
De fato o sucesso da experiência não apenas permitiu que o projeto se estendesse por mais dois anos, mas ensejou a criação de um novo modelo de renda básica que não depende da boa ou má vontade de representantes governamentais, de iniciativas político-partidárias, ou sequer de filantropia. E cujo fator determinante para sua continuidade será a eficiência, eficácia, efetividade e claro economicidade na gestão de um negócio social, ético e sustentável, onde a renda básica é provida de forma permanente por um fundo financeiro destinado não apenas para a comunidade de Quatinga Velho, mas para tantas comunidades quanto o rendimento deste fundo permitir atender.
É importante frisar que quando falamos aqui de um modelo de negócios não queremos dizer que encontramos uma forma de transformar a provisão da renda básica num negócio lucrativo, mas tão somente que o modelo desenvolvido permite que a Renda Básica seja provida a partir dos recursos gerados pelo investimento social das pessoas neste bem comum, sem impostos nem doações. Simplificadamente a renda básica será essencialmente provida, justamente por aqueles rendimentos que seriam distribuídos como dividendos para os proprietários e gestores deste negócio social que não tendo fins lucrativos, redistribuem esse rendimento na forma de uma renda básica mensal igual e sem nenhum tipo de discriminação ou exigência para todos os membros das comunidades atendidas pela Renda Básica do Terceiro Setor através do ReCivitas.
Ou seja, estamos falando aqui de um Fundo de Investimento onde a parte do rendimento que caberia ao administrador e ao “dono” do Fundo o ReCivitas, é destinado para provisão da renda básica em comunidades que serão selecionadas segundo a disponibilidade de recursos e conforme critérios objetivos- desenvolvidos a partir da análise critica e comparativa da experiência- via chamamento público.
Com essa tecnologia social poderemos inclusive estabelecer um plano estratégico com metas pragmáticas para a erradicação da miséria, sem desperdício de recursos e efeitos colaterais dos programas de transferência de renda condicionado tais como o Bolsa-Família.
Isso só foi possível graças ao projeto-piloto de Quatinga Velho, e os dados e resultados obtidos através desta experiência. Resultados que nos ajudaram a quebrar preconceitos em relação ao desenvolvimento humano em liberdade, e que, sobretudo nos permitiram encontrar princípios técnicos capazes de embasar o desenvolvimento de um modelo altamente replicável e eficiente para o combate da pobreza através da provisão sustentável de uma renda básica diretamente pela sociedade civil organizada- com redução de custos, desperdícios, e outros vícios inerentes a máquina burocrática estatal.
Isso não exclui o primeiro setor deste processo. Nada impede que o Fundo venha a financiar toda uma municipalidade ou mesmo suas comunidades mais pobres para serem atendidas pelo serviço público municipal. O Fundo apenas não financiará os custos operacionais e administrativos destes, zerando tanto a possibilidade de desvios quanto de desperdício do recurso. Ou seja, fazendo com que o recurso chegue inteiro na mão de quem precisa, sem se perder na burocracia ou nas mãos de intermediários. Eis uma das chaves para o sucesso de Quatinga Velho e da definição de uma máxima eficiência no trato da coisa pública, na qual a contribuição que não volta inteira para a mão do cidadão como bem, serviço ou dinheiro, é custo e não investimento. Esse princípio, aliás, não serve apenas para instancias governamentais, mas para todas as instituições que prestam um serviço de interesse público.
Assim graças às experiências, estudos e as análises críticas efetuadas a partir do projeto-piloto de Quatinga Velho hoje o ReCivitas conta com uma tecnologia social que aliada a processos de geo-refereciamento é capaz de atuar focalizadamente sobre os bolsões de pobreza econômica e política, sem contudo acirrar tensões de classe, descriminar as pessoas pelas suas condições socioeconômica e sobretudo sem gerar relações de poder que distorcem o processo democrático, tanto eleitoral quanto real- valendo-se para tanto de modelos autogestores que priorizam a democracia direta.
A titulo de esclarecimento o Fundo de Investimento aqui relatado está em fase final de revisão e será apresentada a gestora de fundos tendo por meta abrir para os investidores já no início de 2012. Concomitante a abertura do fundo se realizará também a abertura do já citado chamamento público e disponibilização de roteiro e cursos para elaboração de novos projetos para novas comunidades que serão selecionadas através de critérios objetivos constantes do referido chamamento público. O início do pagamento nestas novas comunidades, por sua vez, está ainda programado para o segundo semestre de 2012, e ou primeiro semestre de 2013, conforme a disponibilidade de recursos do Fundo. Mais detalhes por questões de ordem legal só poderão ser dados a partir do fim do tramite burocrático.
Contudo podemos e devemos assinalar e detalhar um pouco mais de nossas atividades deste ano. De forma sintética segue o memorial 2011 com nossas principais atividades. (Tabela Zero)
• Fevereiro: entrega do plano de negócios do projeto BigBank e Fundo de Sustentabilidade para a Credit Suisse Hedging-Griffo.
• Março: entrega do Report para Ritsumeikan University referente às palestras ministradas no Japão.
• Abril abertura da conta de investimento na Hedging-Griffo.
• Maio: Sustentabilidade de QV: são firmados os primeiros compromissos de participação no Fundo cujo capital já cobririam a RB em Quatinga Velho.
• Junho: Visita do Pesquisador Anthony Baert, Louvain University, ao ReCivitas para a publicação do estudo “Experiências de transferência de renda universal”.
• Assinatura de prestação de serviços Pro Bono com o escritório Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr, & Quiroga Advogados para a elaboração do Fundo de Sustentabilidade.
• Agosto: ReCivitas declara o apoio a iniciativa de Tollense-Lebenspark na Alemanha para a realização de um projeto-piloto.
• Setembro: estágio de 15 dias do grupo de estudos da RB do Prof. Tadashi Okanouchi, Hosei University, ao ReCivitas.
• Outubro: Primeiro Microcrédito concedido em QV calçado na RBG.
• Apresentação no TEDXBologna, Itália, na categoria Inovador do Futuro.
• Novembro: reunião do ReCivitas, escritório Mattos Filho e Luis D’Amato, gestor voluntário para o Fundo na Hedging-Griffo, onde finalmente se define o caráter jurídico e financeiro do Fundo.
• Dezembro: publicação do “Índice de Eficiência e Eficácia” desenvolvido a partir dos estudos em QV.
• Publicação do relatório de 3 anos da RBG em QV.
Destacamos deste memorial o início das experimentações para o desenvolvimento de novo modelo de microcrédito calçado na renda básica garantida, e os esforços para atingir as metas de sustentabilidade previstas no projeto BIGBank e que resultaram no Fundo de Investimento já citado. Tomamos o testemunho de três estudiosos que puderam presenciar e analisar o produto destes esforços aos quais fazemos questão de citar.
“O projeto é bem pequeno, mas mostra um inacreditável gigantesco potencial e possibilidades para o desenvolvimento social e econômico da comunidade local. Eu ouso dizer que o projeto marca um ponto de virada na Historia Mundial de fome e miséria. Porque na localidade do projeto, nós pudemos finalmente encontrar evidencias empíricas da eficácia de um novo e simples meio para erradicar a pobreza no mundo” por Tadashi Okanouchi.

“O valor de 30 R$ da RBC em Quatinga Velho, apenas é suficiente para ajudar as pessoas a satisfazer as mais básicas necessidades materiais. Especialmente as crianças de Quatinga Velho aproveitam deste benefício. O projeto do ReCivitas conseguiu com o uso de recurso financeiros extremamente limitados, alcançar efeitos sociais significantes. Devem ser enfatizados os impactos positivos para a satisfação das necessidades básicas e para a qualidade de vida dos participantes do projeto. Os resultados permitem concluir que a RBC tem contribuído para o desenvolvimento sustentável em Quatinga Velho. Os efeitos foram convincentes, particularmente na área da asseguração das necessidades básicas, da melhoria da qualidade de vida e da capacitação social” por Mathias Rudolph.

“Além disso, do RBC-QV, aprendemos que, para realmente evoluir de simples transferência de renda universal à RBC, é necessário que o modelo de gestão do programa promova os valores de cidadania.”
“A elegibilidade por reconhecimento mútuo em assembléia é um modelo preferível em comunidades pequenas onde o controle social seja possível. Embora as regras não sejam sempre claras e objetivas, isto justamente permite, por um lado, deliberações e decisões complexas de “caso a caso”, e por outro, uma redução drástica dos custos de legislação e de fiscalização. Além disso, este modelo de determinação da elegibilidade em assembléia se aproxima mais da emancipação política perseguida pela RBC. (...) “Por isso, propomos que o município siga o exemplo do RBC-QV e lance primeiramente um projeto-piloto de, por exemplo, cinco anos, ao invés de um programa genuíno” por Anthony Baert.

Cabendo ainda reconhecer que a experiência de QV foi fundamental no fornecimento de subsídios práticos e teóricos para que os coordenadores pudessem elaborar e inaugurar a matéria de Associativismo e Redes Sociais dentro do IATS, ministrado-as em novo curso de “Aperfeiçoamento de Gestão para o Terceiro Setor”. Além de contribuir para a disseminação e entendimento público do conceito no “Dicionário do Terceiro Setor” com verbetes essencialmente ligados ao tema como Condicionalidades, Liberdade real, e a própria RB.
Embora no âmbito da divulgação e prestação de contas ao público o ReCivitas tenha mantido sua divulgação constante nas redes sociais e sites (tabela 1); e além de ter recebido divulgação espontânea nas seguintes publicações e exposições (tabela 2) , é preciso reconhecer nossa deficiência na comunicação principalmente no âmbito nacional, até mesmo porque todos os esforços da equipe se concentram na manutenção do projeto e constituição do Fundo de Sustentabilidade.
Neste sentido é preciso registrar também, que muito do tempo e esforço despendido e que poderia ter sido economizado, foi perdido para a monstruosa burocracia brasileira, levando até mesmo a cogitar-se que o projeto BIGBANK fosse aberto em países com uma legislação mais avançada e mais propicia as empresas e empreendedores sociais. Alternativa que, aliás, permanece caso os entraves burocráticos e políticos continuem a se constituírem como impedimentos intermináveis e incontornáveis.
Por outro lado é preciso também reconhecer o trabalho e agradecer o apoio de muitos voluntários membros do ReCivitas ou não, que foram fundamentais para os progressos descritos no memorial. Sem citar nomes:
• O primeiro agradecimento é evidentemente para todos doadores que concordaram estender por mais este ano 2010-2011 suas contribuições de modo a que o projeto não se findasse a espera que o poder público um dia venha a pagar a RB ou mais pragmaticamente que o ReCivitas iniciasse o pagamento através do Fundo.
• Depois o agradecimento para os membros do ReCivitas que na medida de suas possibilidades contribuíram com trabalho voluntário para consecução dos projetos e prestação de serviços.
• E enfim um agradecimento mais especial ainda aqueles que mesmo sem serem membros, dedicaram tempo e trabalho voluntário para que pudéssemos abrir novas portas como dentro da Credit Suisse Hedging-Griffo e a partir daí finalmente estarmos dando uma forma mais concreta e viável para a provisão dos projetos via o Fundo de Sustentabilidade.
Esperamos que estas pessoas possam se reconhecer nestes agradecimentos e receber nossa gratidão sem constrangimento.
O ReCivitas encerra neste ano ainda a sua primeira gestão, 2006-2011. Um balanço deste período merece espaço próprio e terá lugar numa publicação programada para 2012, no seu devido tempo, porque a gestão termina com mais realizações que seus idealizadores poderiam imaginar. O trabalho prossegue não só cultivando, mas também já colhendo e compartilhando os primeiros frutos desta gestão. Mais uma vez, não precisamos citar nomes para que aqueles que dedicaram seu tempo, e sua vida possam se reconhecer e aos frutos deste seu trabalho e dedicação. Para estes as próprias realizações nos cinco anos de resistência e persistência que geraram a RB em QV e Fundo de Sustentabilidade, são em si sua maior recompensa.
Obrigado a todos que estiveram conosco na abertura e construção deste novo caminho.
Bruna Augusto Pereira e Marcus Vinicius Brancaglione - ReCivitas

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Comunidade e Autonomia

O Ente, a identidade, e o indivíduo

O indivíduo autônomo não é aquele capaz de realizar por sua própria conta ou sem ajuda de ninguém, tudo que pode, tem vontade, ou muito menos deseja, mas o indivíduo que dispõe do necessário para realizar todo o seu potencial, de acordo com sua capacidade pessoal e as possibilidades do meio que está inserido ou da rede na qual se insere.

Comumente nos referimos à pessoa autônoma como aquela capaz de se sustentar sem a ajuda dos outros, O quando o indivíduo autônomo é aquele dotado da liberdade real para se realizar plenamente. Mas todos nascemos dependentes de nossas famílias, comunidade, sociedade e meio ambiente, e mesmo que confundamos liberdade com solidão, e nos apartemos de tudo e de todos, ainda sim como qualquer bicho dependeremos até a morte das disponibilidades senão dos demais de nosso ambiente.

É impossível recriminar o indivíduo que entre ser um morto-vivo em uma civilização completamente pervertida e adulterada, ou viver para morrer logo numa vida isolada e selvagem prefira a última saída. Contudo em verdadeiras sociedades, a liberdade real de um indivíduo não decai com a convivência dos demais, se amplia. Ou seja o nível de autonomia dos indivíduos depende da qualidade da vida comunitária entre todos.

Aparentemente paradoxal, a autonomia em comunidade, é o fenômeno que define não apenas a identidade de uma comunidade, mas a identidade de cada indivíduo. Mais do que isso, é a sociedade e a socibilização que faz do ente, pessoa dotada de liberdade. É um fenômeno reiterado, a coletividade gera a individualidade de cada indivíduo livre, e a livre interação entre todos indivíduos compõe a coletividade.

De fato o indivíduo dentro ou fora da sociedade é apenas um ente, uma peça ou parte do meio ambiente a medida que é obrigado apenas a agir e reagir com o intuito de manter sua existência, seja sendo obrigado a lutar por sua sobrevivência como animal selvagem na natureza, seja sendo obrigado a lutar pela sua sobrevivência como animal domesticado ou não na civilização. O leão não caca porque é livre nem o gamo foge porque tem liberdade.

O elemento essencial da sociedade é libertar o homem desta luta de todos contra todos, e de cada um contra a natureza, estabelecendo um estado de cooperação mutua, uma nova condição humana e humanizante onde a insegurança é tanto menor quanto maior é a liberdade de cada indivíduo, e maior é a liberdade de cada indivíduo quanto maior é o nível de segurança que este estado de cooperação e proteção social proporciona a todos.

Em outras palavras quanto melhor a vida social e o grau de cooperação, maior é o nível de segurança que todos desfrutam e maior é o grau de liberdade, contudo uma sociedade, não existe sem um contrato social onde a associação voluntária de todos em torno da garantia de um bem comum para todos. Ou sem seja sem liberdade individual não há comunidade e sem comunidade não há segurança social, e sem segurança social não há liberdade real para nenhum indivíduo, mesmo aos privilegiados, afinal de contas permanece o estado de medo original de perda ou tomada de seus privilégios, independente se estes são justos ou injustos.

A verdadeira liberdade não é não a condição do indivíduo livre do medos, privações, compulsões, obsessões, repressões e opressões, de outros sobre si, ou de si para si, mas o estado de razoável segurança ou certeza de que de se está e permanecerá livre destas violências e privações.

Libertar-se é emancipar-se não dos demais indivíduos livres, mas tanto dos estados naturais de privação quanto dos artificiais de dominação. Emancipar-se é tornar-se não apenas indivíduo plenamente livre, autônomo. A emancipação é o processo de construção da autonomia, um processo de libertação de todas as condições de privação e dominação que impedem o florescimento da livre iniciativa, vontade e consciência, que impede a própria transformação do ente em pessoa livre. Logo ser livre não é abandonar a vida em sociedade, mas poder tomar parte voluntariamente de uma, e pertencer a uma comunidade não é renunciar a sua vontade própria, mas participar da construção do espaço onde é possível exercê-la.

A interação social não gera apenas a identidade coletiva, a rede social de relações pessoais gera a própria identidade do indivíduo que se insere nesta comunidade.
A comunidade é o a rede formada a parte do conjunto de interações entre indivíduos autônomos E a autonomia é o estado de liberdade plena gerado a partir da livre interação entre estes indivíduos em comunidade.

O ente existe per se, porem sua identidade individual não se define isoladamente nem se constitui em isolamento ou confinamento, dentro ou fora das sociedades, mas pelo conjunto de relações e interações pessoais e sociais que compõe sua convivência social e comunitária. A identidade de cada indivíduo de define pelo contraste com as demais e da livre interação entre essa diversidade pessoal se compõe a própria indivídualidade. O eu tanto social quanto psicológico carece da interação não apenas com o mundo com o outro para se formar. E o eu verdadeiramente livre, sem carência de poder ou medo de ser é aquele que se forma não apenas pela interação com o outro, mas pela conexão com o próximo.

A coletividade e a individualidade assim como a liberdade e segurança não são elementos opostos, mas fenômenos interligados e que se geram e sustentam simbioticamente em rede. Sendo a coletividade o conjunto de indivíduos autônomos. E a individualidade o fenômeno da autonomia gerado na coletividade. Quanto maior a liberdade individual mais forte é o coletivo, e quanto mais coesos e solidários são os indivíduos mais forte é sua liberdade.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Microcrédito por Renda Básica Garantida

Desde nosso primeiro relatório sobre a renda básica de cidadania na comunidade de Quatinga Velho, já havíamos aventado a possibilidade de trabalhar a renda básica em conjunto com o microcrédito. O fato de algumas famílias terem aproveitado a renda básica como se fosse um microcrédito indicara esta possibilidade.
No anexo ao primeiro relatório da RBC já proporíamos o que viria a ser o Banco Social: microcrédito e renda básica em simbiose. A renda básica provendo a demanda e o microcrédito a atendendo, e vice-versa. Propondo ainda a moeda social como potencializador deste ciclo de desenvolvimento para emancipar da comunidade. Culminando no momento em que a comunidade teria condições de bancar sua própria rede de seguridade, ou especificamente, pagar a renda básica para todos na comunidade com o rendimento de suas próprias economias.
Próximo de completar 3 anos de projeto a tendência permanece. Agora que finalmente conseguimos capitalizar o fundo que garantirá a provisão da RBC em QV podemos enfim aproveitar todo esse potencial fiduciário e introduzir o microcrédito.
Diferente da RBG, o microcrédito já tem uma base teórico-experimental razoável e até mesmo um paradigma consolidado com o Grammen de M.Yunus. O Brasil que já tem inclusive um marco legal estabelecido, que se por um lado regula, por outro também engessa o que talvez seja o bem mais valioso do empreendedorismo: a inovação. Muitas inovações em economia solidária quando não são simplesmente proibidas são inviabilizadas por normas que vão do desnecessário ao contraprodutivo. Vai assim o Brasil perdendo a chance de se livrar dos vícios e idiossincrasias históricos ligados às burocracias e autocracias.
Entretanto não nos percamos nestas regras, nem fiquemos nos lamentando. Sem segui-las nem desobedecê-las apenas empreendamos. Neste sentido, o que apresentaremos aqui talvez não seja exatamente aquilo que se costuma referir pelo termo microcrédito, mas é em essência, finalidade, moralidade, perfeitamente condizente com o espírito e da economia solidária e das microfinanças. E pode ainda sim ser classificado como microcrédito, se este for definido como:
• O crédito de pequena monta;
• de juros baixos;
• dirigido às pessoas que não tem acesso ao sistema financeiro tradicional por não possuem capital, ou sem efemismos, os pobres.
Nossa proposição se encaixa nesta definição. Contudo durante nossa experimentação não aplicaremos os juros. Embora haja arranjos legais onde essa aplicação seria possível, tal engenharia jurídica por si nada agregaria a nossa finalidade social, enquanto a ausência de juros (ou juros = zero) embora seja um grave obstáculo à sustentabilidade do empreendimento, não o é da experiência e da replicabilidade do modelo, lembrando que existe outras exemplos a serem estudados para recompor ou ampliar o capital que não necessariamente passam pelo instrumento dos juros, vide as finanças islâmicas por exemplo.
Isto posto, vamos à proposta:
O microcrédito que será disponibilizado não se dará propriamente como um empréstimo, mas sim como uma espécie de adiantamento de n parcelas da renda básica que já são pagas mensalmente dentro de comunidade segurada por uma renda básica garantida, no caso, Quatinga Velho. Tais parcelas serão restituídas automaticamente durante o pagamento das rendas básicas conforme valor definido pelo próprio tomador do adiantamento ou empréstimo, empregando uma parte da renda básica a ser paga.
Embora esse capital advenha do pagamento de um direito, não deixa também de ser um credito concedido. Em razão de:
• Não ser um valor concedido do indivíduo para si mesmo, mas da comunidade para o indivíduo. De A para B.
• Não estar o montante a ser restituído indexado ao valor da renda básica. Seu montante pode ou não corresponder ao valor de um adiantamento da renda básica no período da duração da sua restituição. Ou seja o indivíduo deve x reais e não x rendas básicas.
Contudo há um diferencial, positivo em relação ao microcrédito convencional a insolvência e possibilidade de inadimplência é anulada pela própria renda básica garantida. A pessoa tem na própria renda básica a garantia de que terá as condições de pagar pelo empréstimo, dada a natureza incondicional da renda básica.
Mas há que se ter cuidado. Pois se isso por um lado isto elimina a inadimplência e a pressão da comunidade, por outro se abre a possibilidade do tomador se ver durante o período de pagamento privado de uma percentual importante de sua renda básica.
Tal situação deve ser evitada, mas dentro dos princípios da eficiência, economicidade e liberdade individual. Por isso neste primeiro experimento do microcrédito através da renda básica decidimos implementar um concessão gradual com restituição de médio e longo prazo, isto é, partindo de valores baixos, pagos em parcelas igualmente baixas que comprometam o menor montante possível da renda básica no período. Este “menor montante possível” significa uma restituição que não comprometa a finalidade da renda básica e que ao mesmo tempo seja um capital suficiente a finalidade do microcrédito. Seja esta finalidade a quitação de uma divida com juros abusivos, um pequeno empreendimento, ou mesmo a compra de um produto ou serviço que o tomador deste microcrédito necessário.
É preciso ainda levar em consideração o longo período que uma restituição de pequena monta pode implicar para recompor o capital para novos empréstimos. Pois embora não seja um problema capaz de inviabilizar o sistema, pode torná-lo reduzir sua eficiente na finalidade do desenvolvimento socioeconômico. É portanto uma questão de velocidade de circulação, para a qual adotamos solução símile aos dos sistemas livres, já testada na Brinquedoteca e Biblioteca livres. Nestes sistemas aceleramos a restituição, neste caso a quitação do empréstimo, não pela ameaça de punição, mas sim pelo estímulo a continua reutilização da oportunidade disponível, abrindo a possibilidade de contrair um novo empréstimo imediatamente após a quitacao de um anterior.
Claro que onde existe a cobrança de juros, a quitação do empréstimo já é estimulada pela própria eliminação deste. Porém a possibilidade de adquirir um novo empréstimo de maior monta, ou mesmo o simples fato de poder acessar novamente o crédito, é por si só um estímulo mais do que suficiente para que se quite o empréstimo o mais rapidamente possível.
Ademais tal possibilidade de quitação aumenta em decorrência do próprio incremento do capital gerado a partir do microcrédito. Isto ocorre evidentemente no microcrédito produtivo, mas não exclusivamente neste modelo. Conforme observamos em Quatinga Velho, mesmo um microcrédito aplicado em um bem de consumo, como uma TV, ou um computador, pode representar não só a médio e longo prazo em crescimento das possibilidades socioeconômicas da família, mas também a curto prazo, a medida que o acesso a muitos bens de consumo também aumentam indiretamente as oportunidades e possibilidades produtivas do indivíduo e da comunidade.
Tal incremento não pode ser deduzido diretamente a partir de um estudo particularizado, linear e reduzido. Mas isso não é razão para eliminar essa possibilidade de desenvolvimento do programa. Embora torne evidentemente mais complexo o planejamento do programa de microcrédito ter que trabalhar com tais variáveis, é possível contornar essa dificuldade priorizando os microcréditos não só de menor monta, mas cuja possibilidade de quitação mais rápida sejam mais evidentes.
Deixando-nos abertos para trabalhar durante a experiência com a hipótese de que em sistema de microcrédito que envolve maior numero de empréstimos, o retorno possa ser maior se não condicionado a uma única tipificação de crédito. Talvez não apenas a multiplicação dos beneficiados, mas uma maior diversidade em suas finalidades possa produzir um conjunto muito maior de oportunidades aproveitadas em relação a outros modelos em que as finalidades de créditos concedidos são reduzidos a tipificações enumeradas e controladas.
Assim a preferência pelos denominados microcréditos para produção dentro do programa se darão neste momento pelas limitações dimensionais do sistema, e do reconhecimento de nossa impossibilidade para efetuar o cálculo complexo de previsão das reais possibilidades desenvolvimento da economia local com a diversificação dos microcréditos.
Ademais é possível que tais cálculos sejam não apenas dispensáveis, mas menos efetivos diante de critérios, simples, não-arbitrário e o mais importante: entendidos como justos pela comunidade conforme deliberação democrática. Neste sentido como critério ainda mais simples de elegibilidade, ou melhor, prioridade para o empréstimo, dado que o montante é limitado, sugerimos a adoção do critério mais fácil de ser entendido, aplicado e controlado por democracia direta. Nesta primeira fase do microcrédito iremos priorizar:
i. os microcréditos de menor monta - que salvo exceções atenderiam justamente a sua finalidade, atendendo quem menos têm e proporcionalmente mais precisa. Gerando ainda um retorno mais rápido sem comprometer o orçamento da família.
ii. como critério em eventual desempate: os microcréditos quitados em menos tempo.
Já a preferência, ou melhor prioridade na concessão de novos créditos aqueles que já quitaram seus empréstimos, se dá não apenas como estímulo ou reforço para uma quitação imediata visando reduzir o tempo para recompor o capital , mas também como importante processo de educação financeira essencial para modelos que apostam na livre iniciativa e liberdade dos envolvidos.
Da mesma forma que a gradação nos montantes emprestados, partidos dos valores e restituições mais modestas possíveis não é apenas uma questão de preocupação com o comprometimento e privação de uma renda básica já extremamente modesta , mas prudência que funciona como processo pedagógico - não precisando contar que todos saberão de imediato lidar com o microcrédito. Aqui cabe uma advertência: talvez essa precaução seja absolutamente desnecessária e sejamos mais uma vez surpreendidos pela responsabilidade e capacidade inatas das pessoas (como já o fomos com os sistemas livres e a renda básica). De qualquer forma ao longo do projeto podemos flexibilizar e até mesmo eliminar essas regras se assim se não se mostrarem efetivas.
É importantíssimo frisar que não estamos partindo do princípio de que pessoas não são capazes de identificar, planejar e aplicar adequadamente esse crédito de modo a não passar por condições adversas, mas admitindo a possibilidade que quem jamais teve chance de apreender com a melhor escola que existe, a experimentação, precisa de espaço para aprender com suas tentativas e erros. Processo de desenvolvimento de um potencial natural que antes de tutores precisa de oportunidades para o aprendizado.
Assim, ao partir de montantes e restituições de baixa monta, procuramos reduzir o possível impacto de um microcrédito que mal aplicado pelo tomador não dê um retorno esperado ou mesmo nenhum, de modo que mesmo o erro possa ser absorvido sem prejuízos materiais ao indivíduo, ou ao seu processo de educação financeira. Afinal, de qualquer forma o empréstimo será quitado no prazo original, abrindo nova oportunidade para uma tentativa dentro dos mesmos patamares ou, conforme o entendimento advindo da experiência, em níveis até menores de comprometimento do orçamento.
O conceito é prover um sistema de crédito onde a confiança e iniciativa não seja prejudicada pelos inevitáveis tropeços, e que ao mesmo tempo se constitua em um processo no qual é o tomador de empréstimo que recebe e sente as conseqüências deste processo em um nível adequado as suas condições socioeconômicas e psicológicas, desenvolvendo assim a responsabilidade e preparando-se de fato e naturalmente para assumir compromissos maiores. A isso entendemos como o próprio processo de aprendizado envolvido no programa: a educação como desenvolvimento de potencialidades latentes ou até mesmo bloqueadas pela falta de oportunidade. Oportunidade de aprendizado não apenas para o indivíduo que toma o microcrédito, mas para aquele que o fornece.
Aqui novamente aplicaremos o princípio da democracia direta. Decisão aplicada não na escolha de quem deve ou não deve receber o empréstimo, mas dos níveis de crédito e, sobretudo de um questão importantíssima: o crescimento do capital disponível para o microcrédito. Tudo isso poderia ser facilmente resolvido com o juros conforme deliberação democrática da comunidade, seja com níveis iguais, equitativos, progressivamente menores ou mesmos maiores. Lembrando que neste modelo os juros não são uma “compensação ou recompensa pelo risco”, mas sim um excedente dirigido a manutenção operacional do sistema e crescimento do capital disponível ao microcrédito.
Pode-se ser inclusive que tais finalidades descaracterizem esse pagamento excedente como juros. Porém para não nos perdermos em predefinições, adotaremos em princípio a solução de acrescer o capital por doações dos próprios tomadores de empréstimos. Doações que podem inclusive estar baseadas em percentuais do valor emprestado, sendo doadas mês ao mês ou como se fossem parcelas adicionais após a restituição do empréstimo. Comportando-se exatamente como o pagamento de juros, mas não se caracterizando como tal por uma razão muito simples: seu pagamento é voluntário e jamais se configura como uma dívida ou compromisso de contribuição disfarçado.
O que não impede que a comunidade entre em acordo para que todos contribuam com valores iguais ou equitativos para esse fundo de microcrédito, atrelado ou não aos empréstimos, o que equivaleria neste segundo caso a uma espécie de contribuição associativa para o microcrédito . Ninguém sendo obrigado a contribuir, mas não tendo também a associação o compromisso de emprestar para quem não contribui, ou seja, mutualismo.
O importante aqui será o trabalho informativo. Dado que o crescimento do volume disponível do microcrédito é do interesse dos próprios usuários, a contribuição voluntária é perfeita viável porque condiz aos interesses particulares de cada um na medida da compreensão do fato que o aumento do microcrédito disponível depende da própria de todos. Aqui cabe novamente um paralelo com a Brinquedoteca e Biblioteca Livres, que num dado momento passou a receber doações dos próprios usuários. É obvio que isso não aconteceu em virtude de nenhum cálculo racional utilitarista, mas sim de impulso ou instinto de solidariedade ou mais precisamente de reciprocidade ou gratidão inerentes não apenas ao seres humanos, mas a todos seres vivos dotados de inteligência suficiente para tanto .
Em suma a renda básica não apenas serve de calção e capital para o microcrédito , mas como fonte geradora da demanda a ser atendida pelos microempreendimentos emergentes. Note-se que o pagamento de juros poderia propiciar não apenas o crescimento dos montantes disponíveis ao microcrédito, mas uma maior renda básica, inclusive concomitantemente.
Por exemplo: uma família com 10 membros, que recebe por mês uma renda básica de 30 reais por mês, poderia estar precisando de justamente 300 reais para comprar galinhas e materiais para construir um galinheiro e vender os ovos na vizinhança. Ela poderia tanto decidir pagar esse empréstimo deduzindo três reais de cada renda básica durante 10 meses, ou apenas 1 real durante 30 meses, ou em qualquer arranjo possível considerando:
• a disponibilidade de recursos depositados no fundo;
• e as possibilidades de comprometimento de uma parte da somatória das rendas básicas dos envolvidos.
Independente do sucesso ou não do empreendimento a restituição sempre ocorre na pior das hipóteses dentro no prazo combinado, e se as possibilidades da família tiverem sido bem consideradas, sem nenhuma privação. Dependendo ainda do retorno desse microempreendimento, aqui no caso a venda dos ovos, será sempre interessante para o tomador do microcrédito quitá-lo o mais rapidamente, abrindo nova possibilidade para receber o adiantamento, com mais confiança e experiência para talvez tomar valores maiores do que o primeiro.
Note-se que não apenas famílias poderão usar sua renda básica, mas famílias associadas ou até mesmo toda a comunidade, no caso de um empreendimento coletivo, como a compra de um veículo para uso comunitário, a abertura de um poço, a criação de uma cooperativa de consumo ou produção, ou qualquer outro empreendimento que careça ou passa ser realizado em comum acordo por um grupo.
No momento que estes microempreedimentos formarem uma considerável economia local será possível incrementar estes empréstimos no todo ou em parte através de moeda social. Mas isso é próxima etapa que deverá ainda aguardar as primeiras avaliações do resultado do microcrédito por renda básica e os sempre necessários ajustes que só a experiência pode propiciar a qualquer programa.

Arqueologia do Absoluto

A História como construção do Futuro

Quando o ser humano passou a ter uma mentalidade servil? A relação liderança-subverniência existe nos animais? As relações de poder são sinal de evolução ou corrupção?

No mundo animal as relações podem ser tanto violentas quanto solidárias, contudo não se pode dizer que o fenômeno da servidão e escravidão simplesmente tenha surgido espontaneamente. Eles sempre estiveram presentes como uma alternativa ou estratégia, bem ou mal, sucedidas para a perpetuação das espécies, mas não como conseqüência predeterminada de suas causas.

Tomar o passado como base para o futuro é um uso válido do conhecimento da história, mas para a construção deste conhecimento é necessário a abordagem inversa: estudando o passado como se olhássemos para o futuro. Ao assim proceder não apenas conseguimos nos livrar da falsa impressão que o passado não poderia ter sido diferente, mas sobretudo da maldição da predestinação, na qual as possibilidades do futuro são uma ilusão causada pelo desconhecimento de um futuro que a imagem e semelhança do passado já está definido, cabendo a nós apenas descobri-lo e cumpri-lo.

Nada mais enganoso. Não só devemos não olhar o futuro como se fosse o passado, mas passar a estudar o passado como se fosse o futuro, buscando nos inserir nele como se estivéssemos presente. Esse exercício mental jamais nos dará uma perspectiva perfeita do passado, mas nos permitirá entender que aquilo chamado de presente e tido como inexorável, era naquele momento apenas uma entre tantas possibilidades de futuro. E não porque está foi a escolhida que ela era a única alternativa possível.
O passado é inegavelmente linear, mas não é uma cadeia de causas e conseqüências, as causas explicam as conseqüências, mas o fator determinante são as escolhas dos agentes dotados de vontade que atuam não no campo do desconhecido, mas sim no campo daquilo que precisa ainda ser determinado. De modo que as tomadas de decisão do presente, serão as inexoráveis cadeias de causas e conseqüenciais dos observadores futuros.

A história tomada não como descrição de processos lineares reduzidos, mas sim como descrição sistemas complexos não-deterministicos. Por que? ou melhor para que? Entender a historia como o produto de múltiplos processos de tomadas de decisão individuais e coletivas não serve apenas para compreender o passado, serve acima de tudo para conceber que o futuro não é objeto de previsão ou descoberta, mas de construção.

Futuros Encarcerados

A quebra do predeterminismo não é apenas uma questão metodológica, ela é fundamental para compreensão do fenômeno que nos propomos a entender, pois sendo uma manifestação do mesmo, não poderemos compreende-lo sem superar as limitações que a sua estrutura impõe as abordagens para além da sua perspectiva.
Assim tomando a seleção natural não só dos indivíduos, mas dos coletivos enquanto produto de suas escolhas e estratégias frente as possibilidades, o que vamos pretendemos é levantar uma hipótese que poderia servir de princípio para uma Arqueologia do Absoluto, onde se buscaria não apenas por signos de poder, mas símbolos de um culto ao Poder Total.

Relações de poder e violência sempre existiram. O é num dado momento da espécie humana por conta da capacidade de abstração é a concepção do absoluto, enquanto a noção do poder total, que gera as representação atemporais e temporais do Todo Poderoso, respectivamente Deus e o Estado. Gerando sociedades voltadas para o totalitarismo. E estamos ainda de tal forma imersos nesta condição pervertida de nossa humanidade que se quer nos damos conta de que essa idolatria ao absoluto enquanto processo de desinteligência e desumanização será a perda da nossa humanidade.

Se o comportamento de poder e violência existe na natureza como expressão primitiva de brutalidade, isto explica os atos, comportamentos e condições mais primitivos das pessoas, ou mais propriamente as suas características mais desumanas, contudo não explica o surgimento das características que diferenciam o ser humano das demais espécies, pelo contrário, representam claramente uma contradição da natureza humana.

Assim a pergunta que precisa ser feita é como o ser humano apesar de sua brutalidade e animalidade conseguiu desenvolver suas características humanas? Afinal não foi agredindo e atacando que o ser humano desenvolveu sua extraordinária habilidade de comunicação. Nem foi usando armas que consegui desenvolver sua capacidade de entendimento. As características que nos definem enquanto seres humanos e que nos permitiram desenvolver aquilo que denominamos cultura. ou seja desenvolver a inteligência ao invés de mandíbulas e dentes mais afiados é produto de uma estratégia evolutiva a que chamamos inteligência, que na própria origem da palavra significa capacidade de intercomunicação.

Cooperação-Competitiva

Assim a primeira pergunta não é exatamente o que aconteceu com a HUMANIDADE de modo que esta veio a perverter-se, se voltando para animalidade não apenas com uma força inédita mas com uma estupidez sem precedentes entre todos os animais. A pergunta é como o ser humano consegui desenvolver sua humanidade em condições brutais de competição pela vida que jamais cessaram.

Claro que a vida não pode ser reduzida a mera luta violenta pela sobrevivência num mundo de recursos escassos. A abundância também ocorre permitindo o desenvolvimento de novas capacidades. Ademais a cooperação também é uma característica que pode surgir na escassez. Assim como a abundância mediante a concorrência. Relacionar a competição como única estratégia necessária onde existe escassez, relegando a cooperação apenas para situações de abundância é uma falácia tão grande quanto pressupor que a competitividade não possa e deva surgir na abundância e que a cooperação é pelo contrário a melhor estratégia na extrema escassez. De fato pretendemos demonstrar que a evolução humana está baseada na combinação destes dois elementos, cooperação e competição, para formação de uma estratégia complexa. Uma estratégia a qual denominamos cooperação-competitiva, onde a ordem dos fatores altera o produto já que a característica fundamental desta estratégia é a criação de um estado permanente de abundância onde se pode competir pelo desenvolvimento e não pela mera sobrevivência, através da cooperação para manter esse estado.

Baseada na teoria do jogos, temos que a melhor estratégia individual para qualquer jogador é vencer sem quebrar o jogo, o que leva todos competidores a cooperar naquilo que é seu interesse comum: a existência das condições onde existem vencedores e perdedores, e não presas e predadores. Assim na famosa frase “o importante é competir” deve se ler dois princípios:

• Que deve se competir para vencer.
• E que deve se competir cooperando para a própria existência do jogo.
Sendo o ultimo princípio enunciado o primordial a ser respeitado sob pena de não haver lugar para o segundo. Quando os jogadores perdem a noção deste princípio essencial, base da sua inteligência coletiva, o sistema colapsa.

Autonomia

Assim o processo evolutivo humano ocorre a cada ato de renuncia a violência e a brutalidade, em pro da concorrência para atingir um mesmo objetivo, uma relação ao mesmo tempo cooperativa e competitiva. Essa correlação permitiu que o ser humano desenvolvesse uma capacidade inédita de atuação coletiva, conseguindo atuar com unidade e sem contudo perder sua individualidade, isto é, não apenas em união geradora de massas, mas em comunhão formadoras de indivíduos autônomos.

Aliás é dentro da comunhão que estão as condições para o surgimento desta nova noção de individualidade, que escapa da dicotomia primitiva de: ou obedecer a vontade geral; ou viver isolado de todos. de acordo com esta dicotomia, em comunidade o homem é livre das privações naturais, mas prisioneiro da obediência a vontade comum, ou seja, há muita coisa para se fazer, mas poucas são permitidas. Por outro lado, na vida selvagem se é livre da obediência a sociedade, mas prisioneiro das privações inerentes a um ser sozinho, onde se pode fazer o que se quiser, mas não se tem condições de fazer quase nada.

A individualidade é produto destas novas sociedades humanas não baseadas na união pelo medo e a cobrança de obediência, mas das sociedades fundadas na comunhão de interesses e baseadas na liberdade e concordância. De modo que quanto mais evoluída e inteligente é a sociedade maior é capacidade dela não apenas de tolerar as diferenças e diversidade de personalidades e comportamentos, mas aproveitá-los para a geração do bem comum. Assim como a diversidade genética aumenta as chances de sobrevivência de um grupo, a diversidade cultural aumenta as das sociedades.

Liberdade em Rede

Assim a liberdade individual não é produto da segregação ou separação dos indivíduos de uma coletividade, mas do desenvolvimento e afirmação de suas características diversas e particulares que só fazem sentido dentro uma coletividade,isto é, que só se tornam particulares justamente pelo contraste ou relação com as particularidades de todos os demais. O indivíduo emerge, portanto do coletivo como a afirmação de um nodo dentro de uma rede. Fora da rede ele, sem a possibilidade de produzir as conexões ou relações que constituem aquilo que o define, perde sua identidade e na natureza se torna parte do meio, perdendo toda e qualquer possibilidade de apresentar um comportamento diferente daquele que é o necessário para a sua sobrevivência.

Vontade

Via de regra em qualquer estado natural ou artificial onde o indivíduo perde a capacidade de manifestar sua vontade e passa ser governado por causas e conseqüências, ele deixa de ser indivíduo para ser parte do meio. É uma parte do sistema e do seu meio ambiente regida por leis naturais ou artificial que comandam seu comportamento previsível. Afinal dá para se ter uma boa idéia das conseqüência de se chutar uma pedra ou leão, mas ao chutar de um ser dotado com a vontade humana podemos esperar as mais diferentes reações, até mesmo a incrível, e claro rara, não-reação. A vontade, antes de ser uma força criativa, é uma força primordial de toda evolução, através da não-violência e desobediência: A primeira essencial ao desenvolvimento da inteligência; a segunda da liberdade, ambas em conjunto são a base da superação da força bruta e superstição, a transição da fase da ciência para a fase da consciência, isto é, a superação do “eu sei”, para a percepção do “não sei’. A principal diferença cognitiva de uma evolução humana ainda em processo: a capacidade de lidar com sistemas complexos baseados na incerteza.

Da Ciência e Consciência

Ora essa capacidade como qualquer outra não se desenvolve de forma homogênea e para sua emergência será necessário superar primeiro aquilo a que denominamos de culto ao Absoluto que impede que lidemos como múltiplas verdades, ainda que não necessariamente relativas, mas complexas.

O culto nos impede de compreender a realidade enquanto a própria complexidade, que não pode ser reduzida nem aquilo que é atualmente conhecido, nem ao previsto, mas que precisa ser trabalhada cognitivamente tanto com uma quantidade sem fim de elementos desconhecidos a serem descobertos, quanto com os próprios limites epistemológicos tanto da cognição quanto da intelecção, desenvolvida, portanto como sistemas de compreensão capaz de lidar com a realidade sem pressuposições de que conhecemos ou podemos conhecer tudo e o todo, assim como trabalhando também com aquilo que só pode ser conhecido subjetivamente.

Assim a superação da ciência pela consciência que se dá na mente humana precisa ser trazida a realidade para dentro das relações humanas, espelhadas em nossas sociedades. De modo que não sejamos apenas seres dotados de humanidade, mas que convivamos como Humanidade. Se individualmente somos seres inteligentes, coletivamente não passamos ainda da infância da humanidade, se é que vamos sair dela, como comprova nossos sistemas econômicos baseados em psicologia infantil e infantilizante.

Para construir sociedades humanas e inteligentes e finalmente podermos nos definir realmente como Humanidade, precisamos trazer o homem de volta de seu delírio epistemológico de onipotência e onisciência, motivado por seus anseios infantis de imortalidade, mantidos paradoxalmente por uma cultura de guerra e morte. Precisamos por um fim ao esse idolatria ao poder total.

Culto ao absoluto

Assim a segunda pergunta é exatamente quando o mesmo ser que desenvolveu sua humanidade através da não-violência, da desobediência ou inconformismo e sobretudo através da cooperação-competitiva se tornando inteligente e solidário, perdeu a noção de sua essência e não apenas voltou a apresentar um comportamento brutal e violento, mas com níveis de predação e individualismo que jamais poderiam ocorrer em condições primitivas, sob pena de auto-extinção, naquilo que não pode ser mais chamado apenas de brutalidade, mas sim de maldade.

O que praticamente equivale a perguntar quando o homem inventou a Maldade?
Pode-se dizer que a maldade é um ato de estupidez ou violência cometida por um ser que utiliza sua inteligência para promover ações danosas a outros. É estúpida não apenas porque seu uso generalizado implica a longo prazo dentro de uma sistema complexo como a realidade em prejuízo a todos incluso do próprio agente, mas porque conforme demonstramos carece justamente do componente solidário que determina o desenvolvimento da inteligência, fazendo que esse comportamento promova a destruição tanto do sistema quanto o retrocesso do desenvolvimento humano ou inteligente.
Porque fazemos isso? Ou porque constituímos sociedades tão estupidamente egoístas, ou estúpidas?

A Maldade

Não podemos dizer que esse é um estagio necessário a evolução humana. Porque conforme veremos preconceber a evolução como uma linha única já é um produto de valores absolutos.Contudo o culto absoluto ou o totalitarismo é uma armadilha fácil de se cair perante a força da união.

É evidente que o nível de coesão dos grupos e a capacidade destes de atuar como uma unidade ordenada representou uma evidente vantagem evolutiva, pelo simples diferença evidente que existe entre ter um aliado ao invés de um inimigo. Contudo uma unidade antes de se manifestar na realidade precisa existir como uma concepção, e a na concepção desta unidade reside a diferença entre o Bem Comum e o Mal. O bem como uma unidade promovida em harmonia de pluralidade, ou enquanto um sistema de equilíbrio e cooperação da maior diversidade possível. E o mal como a unidade enquanto supremacia da singularidade obtida desde a supressão das diferença até o extermínio dos diferentes. O bem como a força criativa onde o Uno é a multiplicação e diversificação e renovação da existência, Universo. O mal como força destrutiva onde o Uno é obtido por anulação do outro, eliminação do novo e reprodução ou eternalização do mesmo. O Bem, vida e morte, o mal a eternalização do mesmo, mortos-vivos, mumificação, o anseio da juventude eterna e imortalidade.O Bem é a unidade de complexidade e multiplicidade, variedade e diversidade crescentes. O mal a unidade simplificada, reduzida e uniformizada na noção do único, absoluto, e verdadeiro.

A verdade

A verdade enunciada enquanto exclusão de diferentes perspectivas, mas de diferentes percepções, cognição e formas de intelecção, não apenas como correspondência da realidade, mas como única descrição, percepção e pensamento possível para a realidade. Idéia que pretensamente a única não se afirma, e sim demanda a exclusão de todas as demais.

Mas isso não é ilógico? A verdade de A não implica na falsidade ao menos da negação A? Como pode a afirmação e a negação de algo não serem excludentes?

A resposta é: bastando não tomar como a realidade o sistema epistemológico onde algo é afirmado ou negado como a expressão única da realidade. O que não apenas permite que se expresse o mesmo de diferentes formas, mas permite que se componham noções de realidade com uma compreensão da realidade com complexidade proporcional a multiplicidade, variedade e porque não contrariedade de intelecções da verdade, que integradas e não reduzidas formam uma rede de verdades complexas, muito mais próxima do real, conquanto não apenas trabalhe com essa diversidade intelectual mas seja capaz de trabalhar como incógnitas das possibilidades de compreensão não apenas a incerteza, mas o desconhecido. Compondo e ampliando a partir deste processo epistemológico não apenas o conhecimento, mas o própria compreensão do incognoscível.

Os juízos

Contudo o culto ao absoluto não é um produto do raciocínio, mas um sentimento que gera a racionalização da verdade como juízo. A verdade e a falsidade são produto do julgamento, são sentenças promulgadas por uma mente tribunal soberana sobre o que se dá aos seus sentidos de acordo um mundo que a imagem e semelhança do homem também é governado por forças e leis. E o saber passa a se compor como juízo de verdade, superior a própria realidade, negando como prova aquilo que não esta previsto na lei, e negando como real aquilo que a lei não prevê. O saber absoluto se compõe não portanto do reconhecimento daquilo que se conhece e desconhece, mas sobretudo da negação do desconhecido, chamando de Ciência a forma mais absoluta de ignorância. O processo de sistemática negação da descoberta. Não é a toa que a mudança de todo paradigma cientifico é antes uma mudança mais política do que cientifica.

O poder

Na essência do culto ao absoluto está a repressão da liberdade geradora de um estado psicológico de desejo e idolatria ao poder que se dissemina como uma doença. Onde o indivíduo outrora reprimido extravasa sua vontade de ser e realizar no outro que um dia irá compensar sua frustração dentro das mesmas relação de poder.

Como o desejo de poder fora de si, se converte em verdadeira idolatria ao poder?
Essa é uma questão que vale uma reflexão mais profunda. Por aqui nos resumiremos afirmar que o culto ao absoluto é a maior perversão da humanidade e a própria perversão dos valores humanos mais fundamentais: A comunidade pervertida em totalidade. O entendimento em julgamento. A liberdade em poder. Neste mundo a incerteza é confundida com a insegurança. A sabedoria com autoridade. E a proteção com dominação. Produzindo a noção de a vida que não tem um destino predeterminado não é uma vida com sentido. Quando a indeterminação é a própria dádiva da vida, que permite a todo ser dotado de vontade e liberdade para exercê-la decidir qual sentido dará a sua própria vida – oportunidade que é a própria essência e razão da existência. Assim o ser liberto do culto ao absoluto, a fonte de uma angustia existencial da falta de sentido da vida, se torna o indescritível estado de espírito do ser verdadeiramente vivente que busca e cria com toda sua vontade o significado à vida.

Toda a evolução e manifestação material é produto desta decisão. E não há um ser no Universo que não seja produto desta vontade, e nenhuma forma material que não seja a manifestação deste espírito, a Liberdade: o princípio, meio e sentido da vida.